Pages Menu
Facebook
Categories Menu

Guardai-vos daqueles que pregam a mensagem da prosperidade

Há uma mensagem que nestes últimos anos fez as suas raízes no seio de muitas igrejas, e é uma mensagem que fez e contínua a fazer muito dano; mas juntamente com o dano, os que a pregam fizeram também muitos sustentadores; é chamada ‘da prosperidade’, mas não da prosperidade da alma, porque ela não é tida em nenhuma conta, mas da prosperidade económica e financeira, a qual é pregada e exaltada como se fosse a coisa mais importante para um crente.

Estes faladores vãos e enganadores ensinam coisas que não deveriam, e isto o fazem por torpe ganância e porque buscam a glória dos homens. Entre as coisas que estes dizem estão estas: ‘Nós crentes em Cristo Jesus somos filhos do Rei dos reis e portanto, como convém a filhos de um rei, devemos viver como reis’, o que equivale a dizer que devemos vestir como vestem os príncipes, devemos morar em casas luxuosas e ter carros luxuosos e muitos bens materiais na terra. Nos seus discursos os adjectivos ‘modesto’, ‘humilde’, ‘simples’ são evitados, não são mencionados porque eles (segundo eles) não convêm aos bens materiais que um filho de Deus deve possuir. Para eles quem é rico materialmente tem muita fé em Deus e é uma pessoa abençoada porque faz a vontade de Deus, enquanto quem é pobre tem pouca fé em Deus e não é uma pessoa abençoada por Deus porque não faz a vontade de Deus. Estes falam frequentemente e com muito gosto de dinheiro, de bens materiais, de riquezas, e para sustentarem a sua doutrina tomam algumas passagens do antigo pacto e do novo pacto (naturalmente aquelas que eles pensam que confirmam a sua doutrina e que lhes são cómodas), mas de muitas palavras de Jesus e dos apóstolos não querem não só falar delas, mas nem sequer ouvir falar, tanto são arrogantes. A estes pregadores agrada falar das riquezas materiais que possuíram Abrão, Isaque, Jacó, Salomão e Jó: ora, nós não temos nada a dizer contra as riquezas que possuíram estes homens porque a Escritura ensina que, na verdade foi Deus a dar-lhes todos esses bens e eles os obteram de modo lícito sem fraude, mas ao mesmo tempo não suportamos que estes não só falem quase sempre de dinheiro e de bem-estar material, mas evitem além disso falar do tipo de vida que Jesus Cristo, o Filho de Deus, levou sobre a terra nos dias da sua carne, e de muitos seus ensinamentos, como também evitem voluntariamente falar do tipo de vida que levaram os santos apóstolos e de muitos seus ensinamentos .

 

Jesus Cristo, sendo rico por amor de nós se fez pobre

 

Jesus Cristo é o Filho de Deus; ele disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mat. 11:29,30), portanto nós sabemos que Cristo nos deixou um exemplo de vida e que devemos segui-lo. E quem ousaria dizer que Cristo em alguma coisa não foi um exemplo?

Comecemos por dizer que Cristo, o Filho de Deus, quando nasceu foi posto numa manjedoura conforme está escrito que Maria “deu à luz o seu filho primogénito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lucas 2:7). A manjedoura é um lugar humilde, e precisamente numa manjedoura foi posto o rei dos Judeus quando nasceu; Deus poderia ter feito com que se liberasse um lugar na estalagem para José e Maria, mas não o permitiu, no entanto o menino que Maria deu à luz era o Filho do Altíssimo. Em seguida José com Maria e o menino se mudaram para uma casa porque foi numa casa que os magos vindos do Oriente encontraram o menino e o adoraram, conforme está escrito: “E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra” (Mat. 2:11); também aqui é necessário dizer que a Escritura não fala de um palácio mas diz simplesmente: “Na casa”. Pelo que respeita às dádivas que os magos ofereceram a Jesus é necessário dizer que elas não foram conservadas por Jesus como seu tesouro pessoal na terra, porque ele mesmo disse: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam” (Mat. 6:19), e isto o digo porque há gente perversa que faz insinuações sobre o fim que estas dádivas tiveram em seguida. Nós as suas insinuações as destruímos porque sabemos que Jesus nasceu sem pecado e viveu de maneira irrepreensível durante todos os dias da sua carne (por isso também durante os anos da sua meninice e da sua adolescência).

Jesus, o Filho de Deus, nasceu segundo a carne não só num lugar humilde, mas também de pessoas humildes, com efeito, o seu Pai o fez nascer segundo a carne numa família pobre e não numa família rica da casa de Davi daquele tempo (coisa que Deus poderia ter feito, mas não o fez porque não era segundo a sua vontade). Com base na lei de Moisés, a mulher, depois de dar à luz um filho (quando os dias da sua purificação se cumprissem) devia oferecer um holocausto e um sacrifício pelo pecado, conforme está escrito: “E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação, seja por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado, à porta da tenda da revelação, ao sacerdote, o qual o oferecerá perante o Senhor, e fará, expiação por ela; então ela será limpa do fluxo do seu sangue… Mas, se as suas posses não bastarem para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos: um para o holocausto e outro para a oferta pelo pecado; assim o sacerdote fará expiação por ela, e ela será limpa” (Lev. 12:6-8). Lucas, a tal propósito, diz: “E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogénito será consagrado ao Senhor); e para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos” (Lucas 2:22-24); por estas palavras se deduz claramente que José e Maria eram pobres.

Jesus mesmo viveu pobre neste mundo porque está escrito: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (2 Cor. 8:9); e de facto não tinha nem sequer um lugar onde reclinar a cabeça conforme ele disse: “As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas 9:58). Mas de quais casas luxuosas era proprietário Jesus na terra? O Rei dos Judeus, quando viveu na terra, não viveu num palácio real, não usou roupas magníficas e nem viveu em delícias como fazem os reis da terra; ele disse que “aqueles que trajam roupas preciosas, e vivem em delícias, estão nos paços reais” (Lucas 7:25), mas ele não esteve entre aqueles; no entanto era o rei de Israel. Ele teria podido permitir-se viver como rei, mas renunciou a isso; ele preferiu aniquilar-se a si mesmo e tomar a forma de servo para servir.

O Rei de Israel nos dias da sua carne não se vestiu de púrpura nem pôs uma coroa de ouro na cabeça; os seus trajes modestos consistiam em vestes e numa túnica a qual “tecida toda de alto a baixo, não tinha costura” (João 19:23). Foram aqueles que o escarneceram que o vestiram de púrpura, com efeito, está escrito: “E os soldados o levaram dentro à sala, que é a da audiência, e convocaram toda a coorte. E vestiram-no de púrpura..” (Mar. 15:16,17); foram ainda os soldados que lhe puseram uma coroa na cabeça…mas de espinhos, conforme está escrito: “E tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça..” (Mar. 15:17).

Era o Rei dos Judeus, mas depois que matou a fome a milhares de pessoas com apenas cinco pães e dois peixes, quando soube que estavam prestes a vir arrebatá-lo para o fazerem rei “tornou a retirar-se, ele só, para o monte” (João 6:15). Ele não procurou a glória dos homens, mas a do Pai que o tinha enviado. Se tivesse procurado a glória dos homens, quando soube que as pessoas estavam prestes a vir arrebatá-lo para o fazerem rei não se teria retirado para o monte sozinho.

Quando Jesus entrou em Jerusalém não entrou montado sobre um cavalo branco ou levado pelos seus discípulos numa liteira real como faziam os reis antigos, mas montado sobre o filho de uma jumenta conforme está escrito: “E achou Jesus um jumentinho e montou nele, conforme está escrito: Não temas, ó filha de Sião; eis que vem teu Rei, montado sobre o filho de uma jumenta!” (João 12:14,15; Zac. 9:9). Jesus era humilde de coração, mas isto não se limitou a dizê-lo com a boca, mas o demonstrou também com factos; Ele nunca ambicionou coisas altas, mas acomodou-se às humildes. O repito: Viveu pobre; sim irmãos, é assim, com efeito ele não tinha consigo nem sequer a didracma com a qual pagar o imposto anual que todo o israelita, da idade de vinta anos para cima, devia pagar para a manutenção do culto, com efeito disse a Pedro: “Vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir e, abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-lho por mim e por ti” (Mat. 17:27).

Jesus era pobre mas teria podido se tornar um homem muito rico materialmente se tivesse começado a pedir compensações pelos seus ensinamentos e pelas suas curas, mas Ele não cuidou que a piedade seja causa de ganho, como fazem hoje muitos pregadores corruptos de entendimento e extraviados; Jesus Cristo exerceu “a piedade com contentamento” (1 Tim. 6:6), deixando-nos o exemplo a seguir.

Os pregadores da prosperidade económica ousam até dizer que quem é pobre na terra não tem uma grande fé em Deus, mas sim muito pouca fé. Mas o que querem dizer com isto? Que Jesus Cristo, sendo pobre não tinha uma grande fé em Deus? Ou porventura que Jesus era um homem de pouca fé porque não possuía nada na terra? Jesus Cristo teve uma grande fé em Deus e o demonstrou seja com o fazer muitíssimos sinais e prodígios e obras poderosas em nome do seu Pai, seja com o não pedir ofertas para si, e seja com o dar a sua vida por nós. O Justo viveu pela fé, enquanto estes faladores vãos e rebeldes mostram a sua incredulidade porque pedem dinheiro como fazem os mendigos; alguns deles choram também ao pedi-lo, outros maldizem os que não lhes dão nada ou lhes dão pouco; estes são mercadores que põem à venda as suas pregações; cada um deles estabelece a sua própria tarifa (que sobe à medida que se torna mais famoso). Mas onde está toda esta grande fé que dizem ter em Deus, estes que vivem nas delícias, nos deleites da vida, no meio do luxo desenfreado? Dizem ter fé em Deus, mas na verdade têm fé, e muita, nos seus caminhos tortuosos e nas suas riquezas que acumularam oprimindo os fiéis com as passagens da Escritura que concernem a dar. Roubaram as ovelhas do Senhor, arrancaram-lhes o dinheiro das suas mãos com os mais variados pretextos; acumularam bens em grande quantidade com a fraude e depois ousam dizer: ‘Vedes como Deus me abençoou? Vedes? O Senhor honra aqueles que o honram’, e outras belas palavras, mas falsas. E os simples crêem neles, mas nenhum ou quase nenhum dentre os seus ouvintes sabe quanto, estes pregadores roubaram e espoliaram dos seus bens.

 

Estes pregadores falam dos seus bens como se Deus lhos tivesse dado pela sua recta e justa conduta; dizem ser como Abrão, mas não o são, porque são como Balaão; Abrão sim foi chamado amigo de Deus, mas estes não são amigos de Deus mas sim inimigos de Deus porque são amigos do mundo (conforme está escrito: “Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” [Tiago 4:4]).

 

Os apóstolos eram pobres mas enriqueciam a muitos

 

Também os apóstolos eram pobres, com efeito, Paulo aos Coríntios escreveu dele e dos seus cooperadores: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo!” (2 Cor. 6:10). Eram pobres materialmente mas enriqueciam a muitos espiritualmente; por meio deles a igreja foi edificada e por meio dos escritos de Paulo que era pobre e nada tinha, a igreja sobre a face de toda a terra é ainda edificada, enriquecida e consolada. A mesma coisa não se pode dizer destes que pregam o Evangelho e destroem a vinha do Senhor porque não cuidam de modo nenhum dela, estando virados para o seu próprio caminho; certo são ricos materialmente mas pobres espiritualmente, e os santos, não são enriquecidos por meio deles, nem de viva voz e nem por meio dos seus livros áridos e muito caros que falam sobretudo de bem-estar material, ou melhor, de como ser cristão e fazer dinheiro.

Portanto, os apóstolos do Senhor, apesar de pobres enriqueciam a muitos; mas de que maneira os enriqueciam? Que bens preciosos lhes comunicavam?

Tomemos por exemplo Paulo; ele disse aos Romanos: “E bem sei que, indo ter convosco, chegarei com a plenitude das bênçãos de Cristo” (Rom. 15:29); portanto ele estava convicto que Cristo abençoaria aquela igreja através dele (porque iria ter com eles com a plenitude das bênçãos de Cristo); vejamos de que maneira. No início da epístola disse aos santos de Roma: “Porque desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos” (Rom. 1:11); por estas palavras se deduz que Paulo enriquecia os santos comunicando-lhes dons espirituais (isto significa que o Espírito Santo através dele comunicava dons aos santos segundo a vontade de Deus). Deus, mediante a imposição das mãos de Paulo, comunicava o dom do seu Santo Espírito (Paulo a Timóteo disse: “Te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos” [2 Tim. 1:6]), e juntamente com o Espírito Santo (quando o queria Deus) também dons espirituais, como no caso daqueles cerca de doze discípulos de Éfeso dos quais está escrito que “impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam” (Actos 19:6). O Senhor curava também muitos doentes através de Paulo (em Éfeso “Deus pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários. De sorte que até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam” [Actos 19:11,12]) por isso muitos doentes através dele receberam a cura que é também ela uma bênção de Cristo que não se pode comprar com dinheiro. Paulo enriquecia os santos em sabedoria e em conhecimento, porque transmitia-lhes a sabedoria e o conhecimento que ele tinha recebido do próprio Senhor; nós próprios reconhecemos ter sido enriquecidos em sabedoria e em conhecimento através das epístolas de Paulo. Isaías disse que “a sabedoria e o conhecimento são uma riqueza de libertação” (Is. 33:6), e é por isso que os apóstolos a quem Deus deu sabedoria e conhecimento podiam enriquecer aqueles que os ouviam falar.

Devo lembrar-vos irmãos que quando se fala de Paulo, fala-se de um homem de Deus que não procurou nem o seu próprio interesse e nem as dádivas materiais dos santos, com efeito disse aos Filipenses: “Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que abunde para a vossa conta” (Fil. 4:17); quantos hoje podem dizer a mesma coisa? Deus o sabe. Certamente poucos. Alguns que pregam não procuram o fruto que abunda para a conta dos crentes, de modo nenhum, estão empenhados a procurar os bens materiais dos crentes; nunca estão contentes com o que têm; quanto mais têm mais querem ter. Entre estes estão os que pregam a mensagem da prosperidade que demonstram não querer enriquecer os crentes como faziam os apóstolos, mas de querer eles mesmos enriquecer com os bens materiais dos crentes. Estes, em vez de desejarem os dons do Espírito Santo desejam o ouro e a prata dos crentes; estes em vez de edificarem a casa de Deus querem edificar os seus palácios e construir os seus impérios na terra. Fazem o contrário dos apóstolos; mas aliás não pode ser doutra forma, porque estes, quanto à fé, naufragaram. Ide ver e verificai o tipo de vida que fazem aqueles que pregam esta particular mensagem e vereis com os vossos olhos que para estes bens espirituais e edificar a igreja não importa absolutamente nada, digo absolutamente nada, porque é gente que ambiciona as coisas da terra e cobiçosa de torpe ganância.

Também o apóstolo Pedro era pobre mas enriquecia a muitos. Tomemos por exemplo aquilo que Deus operou, à porta do templo chamada ‘Formosa’, mediante este seu servo. Está escrito: “E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. O qual, vendo a Pedro e a João que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós. E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram. E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou…” (Actos 3:2-8); como podeis ver Pedro não tinha consigo nem prata e nem ouro para repartir com aquele homem que mendigava, mas ele tinha dons espirituais que punha ao serviço dos outros para que dele recebessem o bem. Neste caso, o Senhor, através de Pedro, deu uma perfeita cura àquele coxo. Este episódio leva-nos a reflectir sobre a importância da fé e dos dons do Espírito Santo. Certo, é bom fazer esmolas, porque isso é da vontade de Deus, mas é bom também desejar ardentemente os dons do Espírito Santo, a fim de ver a igreja edificada e de ver os doentes curados pelo poder de Deus. Quando, pelo contrário, se começa a pensar nas coisas da terra se começa a não desejar mais ardentemente os dons espirituais e por isso se deixa de querer edificar a igreja. Paulo, falando dos dons espirituais, disse aos Coríntios: “Vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja” (1 Cor. 14:12); os pregadores de Mamom, pelo contrário, te exortam a procurar abundar cada vez mais de bens materiais. Procuram fazer-te vir a querer enriquecer materialmente mas não a querer enriquecer espiritualmente. Muitas vezes dizem que no início eram pobres e depois se tornaram ricos; mas a trágica realidade é que alguns deles eram ricos espiritualmente no início do seu ministério e depois empobreceram até se tornarem miseráveis. Irmãos, a sorte que espera todos aqueles que se deixam tomar pelo desejo de enriquecer é esta, por isso cuidemos de nós mesmos para não nos acharmos na mesma condição espiritual do anjo da igreja de Laodicéia.

 

Em Cristo fomos enriquecidos

 

Vejamos agora quais são os bens que fazem rico quem os possui.

Antes de tudo é necessário dizer que “Cristo é tudo em todos” (Col. 3:11) e que n`Ele portanto nós temos tudo plenamente “porque o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou” (2 Ped. 1:3). Jesus Cristo é aquele tesouro escondido no campo que encontrámos; Ele é a pérola de grande valor que nós encontrámos; Ele é o nosso ouro. Jesus Cristo é o dom celestial que Deus nos deu; Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Jesus é também a nossa paz e a nossa esperança, portanto quem recebeu Cristo Jesus possui tudo e mesmo se é pobre segundo o mundo é rico para com Deus.

Ÿ Os dons espirituais, os de ministério, e o conhecimento das coisas de Deus são bens preciosos.

 

Paulo escreveu aos Coríntios: “Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em todo o dom de palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós; de maneira que nenhum dom vos falta…” (1 Cor. 1:4-7). Por estas palavras se deduz que os dons do Espírito Santo, os dons de ministério e todo o conhecimento espiritual das coisas de Deus constituem bens espirituais preciosos, pelo que quem os possui é rico.

Ÿ A fé é um bem precioso.

 

Tiago, na sua epístola, diz: “Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2:5). Deus escolheu os pobres segundo o mundo para enriquecê-los na fé, portanto a fé que nós crentes recebemos de Deus (conforme está escrito: “Isto não vem de vós, é dom de Deus” [Ef. 2:8]) é um bem precioso que faz ricos aqueles que a possuem.

 

Também Pedro confirmou que a nossa fé é valorosa quando disse no início da sua segunda epístola: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que connosco alcançaram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Ped. 1:1). Irmãos, vos deveis dar conta que a fé que recebestes não a têm todos (conforme está escrito: “A fé não é de todos” [2 Tess. 3:2]) e tem um grande valor diante de Deus, portanto não a lanceis fora, porque em tal caso lançareis fora a salvação da vossa alma condenando-vos a vós mesmos.

 

Sabei porém que existe também uma fé fingida que não vale nada, precisamente porque é fingida.

Pelas palavras de Tiago se compreende também que aqueles que creram (sendo herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo) são herdeiros do reino de Cristo e de Deus, por isso mesmo se pobres materialmente são ricos e felizes. Jesus testificou a bem-aventurança dos pobres que tinham crido nele quando, “levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6:20). Nós proclamamos que os pobres dentre os santos são felizes e ricos porque aprouve a Deus fazê-los herdeiros do seu reino.

Ÿ A sabedoria de Deus é um bem precioso.

 

Está escrito: “Bem-aventurado o homem que acha sabedoria. Porque é melhor a sua mercadoria do que artigos de prata, e maior o seu lucro que o ouro mais fino. Mais preciosa é do que os rubis, e tudo o que mais possas desejar não se pode comparar a ela” (Prov. 3:13-15). Ora, como Deus disse ao homem: “Eis que o temor do Senhor é a sabedoria” (Jó 28:28), por conseguinte, quem tem temor de Deus tem também a sabedoria divina (porque o temor de Deus produz sabedoria), mas quem não teme Deus não tem sabedoria. Oh, quão precioso é o temor de Deus para quem o possui! Ele é verdadeiramente o seu tesouro, conforme está escrito em Isaías: “O temor do Senhor é o tesouro de Sião” (Is. 33:6).

Salomão foi um homem muito sábio porque possuiu muita sabedoria, mas também foi um homem muito rico materialmente. As riquezas que Salomão possuiu foram verdadeiramente enormes; basta dizer a tal respeito que “o peso do ouro, que vinha em um ano a Salomão, era de seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro (tende presente que um talento equivalia a cerca de quarenta e cinco quilos) afora o que os negociantes e mercadores traziam; também todos os reis da Arábia, e os governadores da mesma terra traziam a Salomão ouro e prata” (2 Cron. 9:13,14), e que no seu tempo “a prata reputava-se por nada” (2 Cron. 9:20) porque “fez o rei que em Jerusalém houvesse prata como pedras” (1 Re 10:27).

No entanto, o mesmo Salomão disse: “Há ouro e abundância de rubis, mas os lábios do conhecimento são jóia mais preciosa” (Prov. 20:15), e ainda: “Quão melhor é adquirir a sabedoria do que o ouro” (Prov. 16:16). Assim pensava Salomão que foi o maior de todos os reis da terra em sabedoria e riquezas; mas infelizmente hoje nem todos pensam da mesma maneira, porque também no nosso meio alguns consideram as riquezas materiais mais preciosas do que a sabedoria de Deus e se enganam grandemente.

Aqueles que falam melhor de riquezes materiais do que da sabedoria se desviaram; aqueles que exaltam os bens materiais (o se percebe quando os se ouve falar) acima da sabedoria de Deus são homens corruptos de entendimento privados do temor de Deus; guardai-vos desta gente para não vos corromperdes e vos desviardes da fé.

 

Ÿ A Palavra de Deus é um bem muito mais precioso do que as riquezas materiais, com efeito, está escrito: “Melhor é para mim a lei da tua boca do que milhares de moedas de ouro ou prata” (Sal. 119:72), e: “Amo os teus mandamentos mais do que o ouro, e ainda mais do que o ouro fino” (Sal. 119:127), e ainda: “Os juízos do Senhor são verdadeiros e inteiramente justos. Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino” (Sal. 19:9,10). Vede irmãos, aqueles que amam o ouro e a prata não são saciados nem com o ouro e nem com a prata, mas aqueles que amam a Palavra de Deus são saciados por ela, porque ela os consola quando estão abatidos, os fortifica quando estão fracos, os repreende para que não se encham de ais, os guia em todas as circunstâncias da sua vida e os instrui em toda a sabedoria. O dinheiro não pode fazer o que faz a palavra de Deus portanto, apesar de útil a todos nós, ele não deve e não pode ser considerado mais importante do que a Palavra de Deus. Como são ricos aqueles que fazem morar abundantemente a Palavra de Deus no seu coração! Mas como são pobres os que, pelo contrário, não fazem morar a Palavra de Cristo no seu coração! Amam o dinheiro mais do que a Palavra de Deus, que loucura! Têm a carteira cheia de dinheiro, mas o coração vazio ou quase da Palavra de Cristo. Querem guardar com cuidado o seu dinheiro mas não querem guardar a Palavra de Deus no seu peito, porque não têm mais prazer nela e não lhe prestam mais atenção.

 

As sagradas Escrituras não são mais o objecto da sua meditação e do seu diligente estudo; não, porque eles agora estudam e meditam como enganar o seu próximo para se enriquecerem o mais rapidamente possível. Eles competem nesta corrida atrás do luxo, ou melhor, atrás do vento, com os que têm um coração teimoso como o seu; são pobres e miseráveis, demonstram sê-lo mas também de querê-lo ser.

Ÿ Ter um bom nome e ser estimado são bens preciosos.

 

Está escrito: “Vale mais ter um bom nome do que muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a riqueza e o ouro” (Prov. 22:1).

Aqueles que têm um bom nome e gozam da estima do próximo são aqueles que temem a Deus e observam os seus mandamentos; para estes o bom nome e a estima são coisas mais importantes do que as riquezas e o dinheiro, e por isso preferem ter pouco com o temor de Deus e com um bom testemunho, do que grandes rendas com injustiça e com um mau testemunho.

Quero que saibais também que, pelo contrário, aqueles que querem enriquecer não têm nem um bom nome e nem são estimados porque eles “caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas” (1 Tim. 6:9). Isto é o que acontece aos que deixam de estar contentes com o que têm e começam a amar o dinheiro. Guardai-vos pois destes pregadores ávidos de ganho a quem não importa nada nem o bom nome e nem a estima, porque se vos deixais arrastar para os seus caminhos vos corrompereis como eles.

 

Estes com as suas conversas vãs não dão bom testemunho dos crentes pobres, na verdade, os fazem passar por gente que tem pouca fé; mas eu quero lembrar-vos que na carta aos Hebreus estão escritas as seguintes palavras em referência aos antigos: “Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra” (Heb. 11:37,38). Eis como andaram vestidos estes (de peles de ovelhas e de cabras e não de vestes preciosas); eis qual era a sua condição social (necessitados, e não milionários); eis como foram tratados estes pelo mundo de então (foram aflitos e maltratados, e não premiados com troféus); eis onde foram obrigados a errar (pelos desertos, montes, pelas covas e cavernas da terra); mas sabeis o que diz a Escritura destes dos quais o mundo não era digno? Isto: “E todos estes, embora tendo tido bom testemunho pela sua fé, não alcançaram a promessa” (Heb. 11:39). Portanto, se por um lado estes foram necessitados, aflitos e maltratados, por outro eles agradaram a Deus pela sua fé e pela sua conduta.

 

Ÿ As boas obras constituem riquezas.

 

Paulo disse a Timóteo para mandar aos que eram ricos neste mundo que “enriqueçam em boas obras” (1 Tim. 6:18); portanto aqueles que são zelosos nas boas obras e abundam nelas são ricos para com Deus mesmo se são pobres.

Aqueles que não esquecem de exercitar a beneficência e de repartir com os outros os seus bens se conduzem como sábios, e ajuntam tesouros no céu e por isso aos olhos de Deus são ricos embora possam ser aos olhos dos homens pobres. Paulo, escrevendo aos Coríntios, fez-lhes conhecer a graça de Deus dada às igrejas da Macedónia por contribuírem para a colecta destinata aos pobres dentre os santos; ele disse-lhes: “Irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus que foi dada às igrejas da Macedónia; como, em muita prova de tribulação, a abundância do seu gozo e sua profunda pobreza abundaram em riquezas da sua generosidade. Porque, dou-lhes testemunho de que, segundo as suas posses, e ainda acima das suas posses, deram voluntariamente, pedindo-nos, com muito encarecimento, o privilégio de participarem deste serviço a favor dos santos” (2 Cor. 8:1-4). Estas igrejas da Macedónia, embora profundamente pobres se demonstraram ricas em boas obras porque contribuíram generosamente para a colecta destinada aos santos, dando acima das suas posses, e disto deu-lhes testemunho Paulo.

Jesus, a fiel Testemunha, deu este testemunho (semelhante ao de Paulo) acerca do anjo da igreja de Esmirna, com efeito, lhe disse: “Conheço a tua tribulação e a tua pobreza (mas tu és rico)..” (Ap. 2:9).

Segundo estas Escrituras há pobres entre os santos que são ricos para com Deus porque possuem tesouros no céu; e como os tesouros no céu os se faz dando esmolas e fazendo toda a boa obra é necessário concluir que estes pobres são ricos em fé, porque demonstram com o observar da Palavra de Deus, ter plena confiança nela. Mas vós pensais que um homem com pouca fé venderia alguma vez os seus bens para dar esmolas como disse Jesus? Mas pensais que um crente pobre que dá acima das suas posses tenha pouca fé em Deus? Mas não são porventura aqueles ricos que dão o seu supérfluo que mostram ter pouca fé em Deus? Vos lembrais daquela pobre viúva que deitou na caixa das ofertas apenas duas moedas? Que disse Jesus dela? Ele disse que ela tinha deitado na caixa mais do que todos aqueles ricos que nela deitavam muito. Porquê? Porque ela deitou lá dentro tudo aquilo que possuía para viver, enquanto os ricos deitaram lá do seu supérfluo. Aquela pobre viúva demonstrou a sua fé em Deus e o seu amor para com o Senhor desta maneira. Aquela pobre mulher sim era rica em fé e em boas obras!

 

Aqueles que, pelo contrário, não querem repartir com os outros os seus bens demonstram falta de confiança na Palavra de Deus. São os ricos avarentos que demonstram não ter fé em Deus, e não os pobres que dão com generosidade.

 

Portanto não é de modo nenhum verdade que quem é pobre não tem uma grande fé em Deus; eu estou seguro que quando estivermos lá em cima no céu assistiremos a uma inversão das classificações feitas por muitos na terra, porque veremos irmãos que na terra eram pobres segundo o mundo, muito ricos, e alguns que eram ricos segundo este mundo que ao contrário possuirão tesouros inferiores aos deles. Teremos modo de nos alegrarmos assim muito ao ver manifestada diante dos nossos olhos a excelsa justiça de Deus; ainda um pouco de tempo e assistiremos também a isto.

Ÿ O espírito benigno e pacífico tem um grande valor.

 

Pedro disse às mulheres na sua primeira epístola: “O vosso adorno não seja o enfeite exterior, como as tranças dos cabelos, o uso de jóias de ouro, ou o luxo dos vestidos, mas seja o do íntimo do coração, no incorruptível traje de um espírito benigno e pacífico, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam antigamente também as santas mulheres que esperavam em Deus” (1 Ped. 3:3,4).

A mulher que tem o seu coração enfeitado com este adorno incorruptível é uma mulher rica, porque possui algo que é de grande preço, algo que tem mais valor até do que jóias de ouro e vestidos luxuosos. As mulheres altivas querem mostrar que são ricas usando jóias de ouro e vestidos sumptuosos; a mulher que teme a Deus ao contrário quer mostrar que é rica no Senhor seguindo o bem alheio e seguindo a paz com todos.

Portanto, segundo a Escritura, entre uma mulher rica vestida sumptuosamente e ornamentada com jóias de ouro muito caras, mas ao mesmo tempo astuta de coração, rixosa e irritadiça, e uma mulher pobre mas forte e virtuosa que veste modestamente e tem um coração adornado de um espírito benigno e pacífico, a mais rica é esta última.

Ÿ O vitupério de Cristo é uma riqueza.

 

Esta expressão poderá parecer estranha e inverosímil, mas o certo é que tem um fundamento escritural. A Escritura diz: “Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egipto; porque tinha em vista a recompensa” (Heb. 11:24-26).

Como podeis ver Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó e escolheu ser maltratado junto com o povo de Israel porque considerou o vitupério que teria logo por causa de Cristo uma riqueza; uma riqueza maior até do que os tesouros do Egipto. Também nós devemos estimar o vitupério de Cristo riqueza maior do que os tesouros deste mundo, porque o vitupério de Cristo tem uma grande recompensa da parte de Deus. Bem-aventurados e ricos são pois todos aqueles que são vituperados por causa de Cristo! Esta é uma expressão que os de fora consideram absurda e feita por gente que perdeu o juízo, precisamente nós, mas não temais porque ela tem a plena confirmação de Jesus Cristo que ainda diz: “Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos expulsarem da sua companhia, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do homem. Regozijai-vos nesse dia e exultai, porque eis que é grande o vosso galardão no céu; pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lucas 6:22,23).

É necessário dizer porém que nem todos hoje pensam como pensava Moisés, na verdade, alguns consideram a riqueza material superior ao vitupério de Cristo. Aqueles que têm este sentimento devem fazer-se loucos para se tornarem sábios e ricos para com Deus.

Ÿ A prova da nossa fé é muito preciosa.

 

Pedro disse: “Pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar nos últimos tempos; na qual exultais, ainda que agora por um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo…” (1 Ped. 1:5-7).

Caros irmãos, a prova que fazemos em Cristo e com a qual a nossa fé é provada, é muito mais preciosa do que o ouro que perece, ainda que o ouro seja provado pelo fogo. Quero mostrar-vos como as riquezas têm um valor inferior à prova da nossa fé pondo em confronto o que as riquezas proporcionam com o que a nossa tribulação produz.

 

As riquezas fazem isto: proporcionam grande número de amigos mas também muitas dores, aborrecimentos e preocupações aos que as desejam e delas tomam posse; mas não só, elas enganam os que confiam nelas e impedem à Palavra de dar fruto neles e no fim os afundam na destruição e na perdição. Esta é a razão pela qual Salomão disse que “quem ama as riquezas não tira delas proveito” (Ecl. 5:10) e que “de nada aproveitam as riquezas no dia da ira” (Prov. 11:4). Mas o que produz, pelo contrário, a nossa tribulação? Paulo diz que “a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança” (Rom. 5:3,4); como podeis ver a tribulação produz directamente paciência e indirectamente produz também experiência e esperança. Tiago confirmou as palavras de Paulo dizendo: “A prova da vossa fé produz a paciência e a paciência tenha a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma” (Tiago 1:3,4 RC e RA). Mediante as tribulações nós somos aperfeiçoados por Deus e por isso damos graças a Deus também por elas, porque elas produzem em nós a paciência, aquela paciência que nos é tão preciosa na nossa vida e de que temos todos necessidade para obter o que Deus nos prometeu. Se as tribulações não nos proporcionassem o bem a nós crentes, Paulo não teria dito: “Sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo” (2 Cor. 12:10); mas ele dizia estas palavras porque ele experimentava o poder de Deus no meio das suas tribulações e porque por meio delas ele era fortificado por Deus, de maneira que podia dizer: “Porque quando estou fraco então sou forte” (2 Cor. 12:10).

Nunca lestes a Escritura que diz: “Quem oprime o pobre, enriquece-o” (Prov. 22:16)? Sabeis porque o pobre se torna rico quando é oprimido? Porque a sua tribulação lhe produz paciência e um peso eterno de glória conforme está escrito: “A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Cor. 4:17), sim, porque as nossas tribulações nos proporcionam também glória; isto o confirmou também Pedro com estas palavras: “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (1 Ped. 1:7). São estas as razões pelas quais nós podemos dizer com toda a confiança que o proveito que se tira da tribulação é muito mais precioso do que aquele que se extrai do ouro que é provado pelo fogo.

Uma das características daqueles que pregam a mensagem da prosperidade é de não quererem falar de sofrimento, de perseguições, como se fossem coisas que os crentes não devam experimentar durante a sua vida. Mas as aflições e as perseguições estão na ordem do dia na vida daqueles crentes que querem viver plenamente em Cristo Jesus, portanto não se pode não falar delas porque isto significaria fazer parecer a vida de quem se converte ao Senhor como uma vida sem tribulações. A razão pela qual estes não pregam sobre estes assuntos é porque eles sabem que os discursos acerca do bem-estar material são muito mais agradáveis de ouvir do que aqueles acerca das perseguições e dos sofrimentos; eles consideram que um cristão não deva sofrer por causa da justiça, mas um cristão que não sofre que tipo de cristão é? Como podem dizer estes tais heresias quando Jesus mesmo disse: “No mundo tereis tribulações… Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós” (João 16:33; 15:20), e os apóstolos disseram que “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (Actos 14:22)? Não se pode demonstrar nem com as Escrituras nem com os factos que os crentes não são chamados a sofrer neste mundo, antes as Escrituras e os factos testificam exactamente o contrário. Tomemos as seguintes palavras de Paulo aos Coríntios: “Até a presente hora padecemos fome, e sede; estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa, e nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e o suportamos; somos difamados, e exortamos; até o presente somos considerados como o lixo do mundo, e como a escória de todos” (1 Cor. 4:11-13); não estão porventura a demonstrar que os que anunciam a Palavra de Deus têm muitos inimigos e sofrem perseguições de todo o género? Porém elas não agradam a estes pregadores. O seu Evangelho é privado de aflições; as suas pregações versam sobre o sucesso e sobre o dinheiro; mas aliás, como poderiam alguma vez porem-se a pregar a renúncia a si mesmo quando eles próprios ainda não renunciaram a si mesmos?

A sua mensagem é atraente e sedutora também por esta característica, porque é privada destes assuntos. Toda a mensagem que não põe em relevo as aflições que um crente deve padecer sobre a terra encontrará sempre muitas pessoas dispostas a aceitá-la, porque hoje quase ninguém quer ouvir falar de ter que sofrer pelo Evangelho. Quase todos querem apenas ouvir que Deus nos ama, que não nos fará faltar nada, que é bom e pronto a perdoar quem vai a ele. E se depois a estas palavras se acrescenta que quem vai ao Senhor não terá mais problemas, e Deus o fará prosperar economicamente e o fará viver sobre esta terra como um filho de rei, então a mensagem encontra ainda um mais largo consenso. Dilectos, acautelai-vos; não sejais enganados por estes faladores vãos, porque Jesus disse: “Quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” (Mat. 10:38), e ainda: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33), enquanto estes queriam vos fazer seguir o Senhor sem levardes a vossa cruz e sem renunciardes a vós mesmos. Isto é impossível fazê-lo, porque a vereda cristã está cheia de sofrimentos e de renúncias; eu, as pisadas de Cristo não as encontrei numa estrada cómoda onde não há necessidades, perseguições, e angústias, mas numa estrada apertada onde diariamente há lutas a enfrentar e aflições a padecer por causa da justiça. Foi sobre esta que comecei a caminhar e é sobre esta que quero terminar de caminhar com o meu Senhor; as estradas cómodas sem perseguições mas com os prazeres da vida à mão não têm nada a ver com o caminho santo, não entreis por elas porque elas conduzem para longe do Senhor e dos seus mandamentos.

Ser pobre segundo o mundo não é uma desonra para os Cristãos

 

Vejamos agora uma das afirmações que mais frequentemente se ouve fazer a estes pregadores, a saber, a seguinte expressão: ‘Deus não quer que hajam pobres no meio do seu povo, mas quer que todos os seus filhos sejam ricos materialmente’.

Antes de tudo é necessário dizer que da maneira como falam estes faladores vãos parece que os crentes pobres são aqueles que têm o que é necessário ao corpo, isto é, de que se alimentarem e de que se cobrirem, que moram em casas modestas e têm um carro modesto, e que vestem vestes modestas e que estão contentes com o que têm. Julgai por vós mesmos: ‘Mas como podemos aceitar uma tal definição de pobre?

 

Segundo a Escritura os pobres são os necessitados que têm necessidade das coisas necessárias como comida, roupa e outras coisas úteis; mas além disso, ainda segundo a Escritura, no meio do povo de Deus os pobres haviam desde os tempos antigos e haverão também durante a nossa geração. Ora, mas como é possível que hajam pobres no meio do povo de Deus? A razão é que nem todos os crentes vivem na mesma nação e gozam das mesmas circunstâncias favoráveis do ponto de vista climático, económico e político. Explico este conceito. Ora, a Escritura diz que não basta ser “sábio para ter o pão, nem ser inteligente para ter riquezas… porque todos dependem do tempo e das circunstâncias” (Ecl. 9:11). Vejamos com as Escrituras como mudando as circunstâncias muda também a situação económica das pessoas.

Ÿ Durante a vida de Jacó aconteceu que Deus “chamou a fome sobre a terra, quebrantou todo o sustento do pão” (Sal. 105:16); isto aconteceu porque Deus fez vir sobre toda a terra uma grave fome. Cuidai que foi Deus a enviar a fome, porque tinha estabelecido fazer descer Jacó e a sua parentela ao Egipto. A descida de Israel ao Egipto (onde entretanto José se tinha tornado governador do país e onde havia trigo) tinha sido preanunciada por Deus a Abrão e Deus se usou da fome para fazer descer Israel ao Egipto. Ora, tende presente que Jacó, quando ouviu dizer que no Egipto havia trigo disse aos seus filhos: “Tenho ouvido que há trigo no Egipto; descei até lá, e de lá comprai-o para nós, a fim de que vivamos e não morramos” (Gen. 42:2), para entenderdes como por causa dessa fome enviada por Deus, Jacó que era um homem que Deus tinha abençoado dando-lhe bois, ovelhas, cabras, jumentos e camelos em grande número, se encontrou perto da morte porque estava sem o pão necessário para viver (e tudo isto por vontade de Deus). Neste caso a pobreza desceu sobre a terra de Canaã por querer de Deus, e Jacó padeceu as consequências dela. De qualquer modo, importa lembrar que Deus libertou Jacó e a sua parentela da morte mediante um grande livramento operado por meio de José (com efeito José, quando se deu a conhecer aos seus irmãos disse-lhes: “Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento” [Gen. 45:7]).

 

Deus fere as nações sobre a terra também não fazendo chover sobre elas e quando isto acontece, a abundância acaba e começa a miséria, porque se seca a terra e ela não produz mais nada, e porque os animais não encontrando que beber morrem de sede. Quando acontece isto, também os crentes dessa nação sofrem as consequências porque vêm a encontrar-se em necessidade.

Aos dias do profeta Elias, Deus não fez chover sobre Israel por três anos e seis meses porque o seu povo o tinha abandonado, tinha morto os seus profetas e se tinha voltado para os ídolos. A seca foi enviada por Deus como flagelo sobre Israel, e como naquele tempo vivia Elias, também ele se encontrou em necessidade. Mas Deus proveu o seu sustento enviando-o primeiro junto ao ribeiro de Querite onde por um certo tempo Deus lhe enviou os corvos levar-lhe pão e carne pela manhã e à noite, depois, quando o ribeiro secou porque não chovia, Deus o enviou para junto de uma pobre viúva de Sarepta de Sidom à qual tinha ordenado dar-lhe de comer. Elias era um homem justo e santo que obedecia à voz de Deus, no entanto se encontrou na penúria por vontade de Deus, por causa de uma seca. Não é que Elias se encontrou em necessidade porque desobedeceu a Deus e Deus o puniu; não se pode dizer também que Elias se encontrou em necessidade porque se tinha afastado de Deus e Deus o amaldiçoou. Elias era um santo homem que era movido por um grande zelo pelo Senhor e no meio da penúria em que se encontrou Deus operou prodígios em seu favor; primeiro ordenou aos corvos para lhe levarem de comer, e depois em Sarepta não fez acabar a farinha da panela e não fez faltar da botija o azeite daquela viúva até ao dia que veio de novo a chuva sobre a terra.

Ÿ Depois que Deus libertou os Israelitas da mão de Faraó estabeleceu com eles o seu pacto no qual prometeu que os abençoaria se eles dessem ouvidos à sua voz, observando os seus mandamentos. Mas Deus lhes disse também que os amaldiçoaria e os empobreceria muito no caso deles o abandonarem e se virarem para os ídolos das nações. Isto foi o que aconteceu a Israel quando se desviou da lei de Deus, portanto Deus os fez tornarem-se pobres por causa da sua maldade. Temos uma prova disto no livro dos juízes, quando a Escritura fala da condição económica em que veio a encontrar-se Israel depois que desobedeceu a Deus. Está escrito: “Porém os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor; e o Senhor os deu nas mãos dos midianitas por sete anos. E, prevalecendo a mão dos midianitas sobre Israel, fizeram os filhos de Israel para si, por causa dos midianitas, as covas que estão nos montes, as cavernas e as fortificações. Porque sucedia que, semeando Israel, os midianitas e os amalequitas, e também os do oriente, contra ele subiam. E punham-se contra ele em campo, e destruíam os frutos da terra, até chegarem a Gaza; e não deixavam mantimento em Israel, nem ovelhas, nem bois, nem jumentos. Porque subiam com os seus gados e tendas; vinham como gafanhotos, em grande multidão que não se podia contar, nem a eles nem aos seus camelos; e entravam na terra, para a destruir. Assim Israel empobreceu muito…” (Juízes. 6:1-6). Como podeis ver neste caso Deus enviou espoliadores para roubar a Israel o seu mantimento por causa da teimosia do seu coração. O seu povo tornou-se pobre porque Deus o empobreceu (lembrai-vos que está escrito que “o Senhor empobrece” [1 Sam. 2:7]).

 

Ainda hoje Deus pune as nações e as empobrece enviando contra elas exércitos estrangeiros que se apropriam dos seus bens materiais, dos seus animais e dos produtos da sua terra; quando isto acontece, é inevitável que também os crentes que habitam nessa nação sofram as consequências disto, vendo diminuir vertiginosamente também os seus bens materiais. Quando acontece isto nós podemos dizer que a pobreza sobrevém por vontade de Deus, e portanto se os crentes dessa nação começam a padecer necessidade, começam-no por vontade de Deus. Sabei que quando Deus quer instruir-nos a padecer necessidade (Paulo tinha sido instruído por Deus “tanto a ter abundância, como a padecer necessidade” [Fil. 4:12]) o faz, e ninguém lho pode impedir. Portanto, sabei que Deus se pode usar também de uma futura guerra para nos ensinar a nós crentes aqui no país onde vivemos a padecer necessidade.

Ÿ Deus pode também fazer subir ao governo um déspota (um ditador) para reduzir a população de uma nação à miséria ou se não à miséria, em angústias; e também neste caso, a igreja de Deus nessa nação sofreria as consequências disso, e se encontraria não mais na abundância mas a padecer necessidade.

 

Na antiguidade Deus estabeleceu sobre Israel o rei Saul, filho de Quis, e fez conhecer ao povo de Israel o modo de agir deste rei ainda antes que ele se sentasse sobre o seu trono por vontade de Deus. Eis o que disse Samuel por ordem de Deus ao povo: “Este será o modo de agir do rei que houver de reinar sobre vós: tomará os vossos filhos, e os porá sobre os seus carros, e para serem seus cavaleiros, e para correrem adiante dos seus carros; e os porá por chefes de mil e chefes de cinqüenta, para lavrarem os seus campos, fazerem as suas colheitas e fabricarem as suas armas de guerra e os petrechos de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas terras, das vossas vinhas e dos vossos olivais, e o dará aos seus servos. Tomará o dízimo das vossas sementes e das vossas vinhas, para dar aos seus oficiais e aos seus servos. Também os vossos servos e as vossas servas, e os vossos melhores mancebos, e os vossos jumentos tomará, e os empregará no seu trabalho” (1 Sam. 8:11-16). Que Saul oprimiu o povo é confirmado pelo facto de que enquanto ele perseguia Davi, “ajuntaram-se a ele todos os que se achavam em aperto, todos os endividados, e todos os amargurados de espírito; e ele (Davi) se fez chefe deles..” (1 Sam. 22:2).

Ÿ Se subisse ao poder um ditador e os crentes começassem a ser perseguidos e a ser presos aconteceria que muitas famílias seriam privadas dos seus chefes de família e viriam a encontrar-se em necessidade. Isto foi o que aconteceu durante a perseguição dos crentes em muitas nações: maridos aprisionados por causa do Evangelho não puderam mais prover as necessidades dos da sua casa os quais deixaram de viver na abundância e começaram a experimentar a pobreza. Nós sabemos que as perseguições contra os santos acontecem porque Deus as permite a fim de purificar os santos; de facto, é sabido que durante as perseguições os crentes são humilhados por Deus e nesta humilhação começam a mostrar aquele amor fraterno intenso que na abundância e durante o período de liberdade tinha vindo a faltar por causa do egoísmo e da soberba. Os crentes, durante a perseguição, começam a experimentar restrições económicas de todos os géneros, mas por outro lado começam a mostrar grande solidariedade para com os mais atingidos pela perseguição.

 

Se as autoridades começassem a perseguir os santos espoliando-os dos seus bens por causa do Evangelho, os crentes que tinham vivido até então na abundância começariam a experimentar a penúria por vontade de Deus, mas tudo isto os santos o aceitariam com alegria (a Escritura diz: “Com alegria aceitastes a espoliação dos vossos bens, sabendo que vós tendes uma possessão melhor e permanente” [Heb. 10:34]).

Mas todas estas circunstâncias adversas, se por um lado produzem miséria e pobreza, por outro fornecem aos crentes que vivem na abundância a oportunidade de fazer o bem em prol daqueles crentes que venham a encontrar-se na penúria, portanto no fim até cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

Mas é normal portanto que entre o povo de Deus hajam crentes pobres ou isso constitui um facto anormal? Por aquilo que ensina a Escritura não nos devemos admirar da presença dos pobres entre os santos, antes quereria dizer que não pode ser doutra forma porque Jesus disse: “Os pobres sempre os tendes convosco…” (João 12:8), e na lei está escrito que “nunca deixará de haver pobres na terra” (Deut. 15:11).

Agora vejamos se é verdade que Deus quer que nós nos tornemos ricos porque ser pobre constitui uma desonra para os crentes, como dizem estes pregadores.

Antes de tudo é necessário dizer que se fosse assim Jesus não fez a vontade de Deus porque ele viveu pobre sobre a terra por todo o tempo da sua vida terrena; desonrou porventura Deus com este tipo de vida Jesus, o Filho do Rei dos reis? De modo nenhum, doutra forma Ele não teria podido dizer aos Judeus: “Honro a meu Pai” (João 8:49). Jesus conhecia a vontade do seu Pai; como é que então não quis se tornar rico? Como é que ele que tinha uma grande fé em Deus nunca pediu a Deus para dar-lhe riquezas e para fazer-lhe viver uma vida em delícias como convém a um filho de rei? A resposta está contida nestas palavras de Jesus: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6:38).

Se nós depois disséssemos que Deus quer que nós todos nos tornemos ricos isso significaria que nós deveríamos querer enriquecer sobre a terra porque esta é a vontade de Deus para connosco. Mas neste caso seria como dizer que Deus quer que nós caiamos em tentação; por que digo isto? Porque a Escritura diz que “os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Tim. 6:9), portanto, como Deus quer que nós permaneçamos de pé temos que deduzir que não é a sua vontade que nós nos tornemos ricos neste mundo (mas como é que estes pregadores nunca dizem que Deus quer que nos tornemos ricos no outro mundo, isto é, no vindouro?).

Mas há uma outra coisa a dizer, a saber, que se esta é a vontade de Deus para com todos nós, então nós temos o direito de pedir a Deus riquezas em abundância com a confiança que Ele nos ouve porque João diz: “Esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14); mas então seria anulada a Escritura que diz: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tiago 4:3)! Como podeis ver os discursos destes são anulados pela Escritura de maneira inequívoca.

Agora quero que presteis atenção às seguintes palavras do apóstolo Paulo aos santos de Tessalónica, a fim de perceber como ser pobre não é de modo nenhum nem um escândalo e nem uma desonra para a doutrina de Deus como, pelo contrário, fazem perceber estes faladores vãos.

Paulo aos Coríntios, falando dos santos das igrejas da Macedónia (entre as quais estava também a dos Tessalonicenses) disse: “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus que foi dada às igrejas da Macedónia; como, em muita prova de tribulação, a abundância do seu gozo e sua profunda pobreza abundaram em riquezas da sua generosidade. Porque, dou-lhes testemunho de que, segundo as suas posses, e ainda acima das suas posses, deram voluntariamente, pedindo-nos, com muito encarecimento, o privilégio de participarem deste serviço a favor dos santos” (2 Cor. 8:1-4). Os santos de Tessalónica portanto eram pobres, porque Paulo falou de profunda pobreza em referência às igrejas da Macedónia. Ora, mas se isto tivesse sido uma desonra para eles ou Deus tivesse querido que eles se tornassem ricos Paulo lho teria feito saber de algum modo nas epístolas que lhes escreveu, mas nas duas epístolas aos Tessalonicenses não encontramos rasto de tudo isto. Antes, é necessário dizer que os santos de Tessalónica, apesar de profundamente pobres, eram um exemplo tanto para os crentes da Macedónia (que se encontravam na pobreza) como para os da Acaia, que estavam na abundância como a igreja de Corinto por exemplo. Por isto Paulo e os seus cooperadores davam graças a Deus pelos santos de Tessalónica: ele escreveu-lhes: “Sempre devemos, irmãos, dar graças a Deus por vós, como é justo, porque a vossa fé cresce muitíssimo e o amor de cada um de vós transborda de uns para com os outros. De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa constância e fé em todas as perseguições e aflições que suportais” (2 Tess. 1:3,4); como podeis ver esses irmãos apesar de pobres materialmente eram ricos em fé e em boas obras, e além disso se mantinham firmes na fé no meio das suas aflições e por causa disso os apóstolos se gloriavam deles.

 

Para Paulo e os seus cooperadores os santos de Tessalónica andavam de modo digno de Deus e por isso agradavam a Deus, com efeito, ele escreveu-lhes: “Finalmente, irmãos, vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como aprendestes de nós de que maneira deveis andar e agradar a Deus, assim como estais fazendo, nisso mesmo abundeis cada vez mais” (1 Tess. 4:1). Mas qual desonra para a doutrina de Deus constituia o facto desses crentes serem pobres?

E depois, o repito, se a vontade de Deus para com esses crentes pobres tivesse sido a de eles se tornarem ricos, Paulo lho teria feito saber, mas a propósito da vontade de Deus para com eles não lhes escreveu nada de tudo isto.

Para estes faladores vãos o ser rico é o tema sobre o qual versam todas as suas pregações; a consideram uma coisa tão importante que importunam fortemente os crentes com estes discursos; mas achais que um apóstolo como Paulo, a quem Deus deu a graça de dar tantos mandamentos aos santos de todas as igrejas dos Gentios, sejam elas ricas materialmente ou pobres, teria alguma vez deixado de falar de uma coisa tão importante? E depois, se a profunda pobreza desses crentes tivesse sido uma desonra para o Evangelho Paulo não lhes teria dito: “Porque, qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória? Porventura não o sois vós também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em sua vinda? Na verdade vós sois a nossa glória e gozo” (1 Tess. 2:19,20). Certo é que esses irmãos pobres de Tessalónica se tinham tornado um exemplo para muitos e muitos crentes, portanto eles honravam a doutrina de Deus; enquanto devemos dizer que estes pregadores da prosperidade juntamente com os seus seguidores não servem de modo nenhum de exemplo aos crentes mas só de escândalo e de tropeço, precisamente porque são arrogantes, presunçosos e dados aos prazeres da vida.

Mas como podem estes dizer serem discípulos do Mestre, quando falam e vivem de uma maneira nitidamente contrária àquela de que falou e viveu Jesus nos dias da sua carne? Não se envergonham, nem sabem que coisa é envergonhar-se; na verdade se gloriam no que é vergonhoso.

 

Todos os nossos caminhos dependem de Deus

 

A Sabedoria diz que não basta “ser inteligente para ter riquezas… porque todos dependem do tempo e das circunstâncias” (Ecl. 9:11), e isto é verdade, com efeito um crente pode tornar-se rico embora não querendo enriquecer, mas isto acontece quando e se Deus o permite na sua vida.

Está escrito: “Casa e riquezas são herdadas dos pais” (Prov. 19:14), por isso pode acontecer que um crente que não ambiciona as coisas da terra e que não quer enriquecer, se torne de repente rico no seguimento de uma herança lhe deixada pelo pai ou pelos avós; na Escritura temos o exemplo de Isaque que herdou tudo o que tinha possuído Abrão seu pai, conforme está escrito: “Abraão, porém, deu tudo quanto possuía a Isaque” (Gen. 25:5).

Há uma outra maneira em que um crente pode tornar-se rico sem o querer, e isto acontece quando é Deus mesmo a fazer prosperar o trabalho desse crente de uma maneira prodigiosa, de uma maneira sobrenatural, firme permanecendo a integridade do crente. De Isaque está escrito: “E semeou Isaque naquela mesma terra, e colheu naquele mesmo ano cem medidas, porque o Senhor o abençoava. E engrandeceu-se o homem, e ia enriquecendo-se, até que se tornou mui poderoso. E tinha possessão de ovelhas, e possessão de vacas, e muita gente de serviço” (Gen. 26:12-14); como podeis ver, Isaque semeou e naquele ano específico colheu cem medidas, isto significa que Deus operou um prodígio em favor de Isaque porque para colher cem medidas (o cêntuplo) é preciso uma intervenção de Deus. Deus estava com Isaque e isto o reconheceram também os Filisteus que o invejavam, com efeito, um dia eles lhe disseram: “Havemos visto, na verdade, que o Senhor é contigo” (Gen. 26:28).

Também para Jacó é necessário dizer que foi Deus a operar em seu favor para enriquecê-lo. Este homem quando foi para Padã – Arã passou o Jordão com o seu cajado e quando voltou dessa terra voltou com numerosos rebanhos de ovelhas, com muitas cabras, com muitas vacas e touros, com muitos camelos e muitos jumentos. Vejamos como pôde acontecer tudo isto. Jacó, em casa de Labão, esteve vinte anos e no curso destes anos ele trabalhou catorze anos pelas suas duas filhas Léia e Raquel que se tornaram suas mulheres e outros seis anos pelas suas ovelhas; no fim dos vinte anos ele recebeu de Deus a ordem de voltar para a terra dos seus pais e para a sua parentela e chamando Léia e Raquel disse-lhes: “Vejo que o rosto de vosso pai para comigo não é como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo. Ora, vós mesmas sabeis que com todas as minhas forças tenho servido a vosso pai. Mas vosso pai me tem enganado, e dez vezes mudou o meu salário; Deus, porém, não lhe permitiu que me fizesse mal. Quando ele dizia assim: Os salpicados serão o teu salário; então todo o rebanho dava salpicados. E quando ele dizia assim: Os listrados serão o teu salário, então todo o rebanho dava listrados. De modo que Deus tem tirado o gado de vosso pai, e mo tem dado a mim. E sucedeu que, ao tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e num sonho vi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados, salpicados e malhados. Disse-me o anjo de Deus no sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui. Prosseguiu o anjo: Levanta os teus olhos e vê que todos os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados; porque tenho visto tudo o que Labão te vem fazendo..” (Gen. 31:5-12). Deus viu que Labão enganava Jacó e lhe tirou o gado e o deu a Jacó; isto é o que Deus operou em prol de Jacó. Ainda hoje Deus opera da mesma maneira, e tira os bens ao pecador e os dá a quem é agradável aos seus olhos, e não há ninguém que o possa impedir. As Escrituras que confirmam isto são as seguintes:

Ÿ “A riqueza do pecador é reservada para o justo” (Prov. 13:22)

 

Ÿ “O que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre” (Prov. 28:8)

 

Ÿ “Ao homem que lhe agrada, Deus dá sabedoria, e conhecimento, e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dá-lo àquele que agrada a Deus” (Ecl. 2:26)

 

Também Jó foi um homem muito rico mas ao mesmo tempo íntegro e recto; vejamos como Jó entrou em possessão de todos aqueles bens que possuía. A Escritura diz: “Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó. Era homem íntegro e recto, que temia a Deus e se desviava do mal. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía ele sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas, tendo também muitíssima gente ao seu serviço; de modo que este homem era o maior de todos os do Oriente” (Jó 1:1-3). Ora, muitas vezes, quando se fala de Jó lembramo-nos das suas riquezas mas não da sua integridade, e isto é um erro porque se deveria lembrar ambas as coisas porque elas estão fortemente ligadas entre si, com efeito, na origem das suas riquezas estava o temor que ele tinha de Deus. Jó era um homem recto que temia a Deus e desviava-se do mal; ele praticava a justiça repartindo os seus bens com quem estava necessitado, com efeito, fazia rejubilar o coração da viúva, tomava conta do orfão, era o olho do cego, o pé do coxo, o pai dos pobres, era um voluntarioso hospedeiro dos forasteiros e além disso tinha uma conduta pessoal irrepreensível e exemplar. Deus viu como se conduzia este seu servo e abençoou ele e a obra das suas mãos e isto o reconheceu até Satanás, com efeito, disse a Deus de Jó: “A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra” (Jó 1:10).

Mas Jó não foi íntegro somente quando esteve na abundância e quando a bênção de Deus repousava sobre ele e sobre tudo o que possuía, mas também quando esteve na penúria porque perdeu tudo o que possuía e quando foi ferido por Satanás de úlceras malignas desde a planta do pé até ao alto da cabeça. Ele se manteve firme na sua integridade e não blasfemou contra Deus no meio da pobreza e dos seus atrozes sofrimentos (ele disse: “O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” [Jó 1:21], e à sua mulher que o incitou a abandonar Deus respondeu: “Como fala qualquer doida, assim falas tu; recebemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?” [Jó 2:10]) como Satanás pensava que faria (conforme ele disse a Deus: “Toca-lhe em tudo quanto tem… toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!” [Jó 1:11; 2:5]), demonstrando assim temer a Deus não porque Deus o tinha abençoado mas porque ele amava Deus. Deus provou Jó e viu que Jó, mesmo privado dos seus numerosos bens e da sua saúde, se manteve firme na sua integridade e não blasfemou o seu nome e virou o cativeiro de Jó conforme está escrito: “E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía…. assim abençoou o Senhor o último estado de Jó, mais do que o primeiro; pois teve catorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas” (Jó 42:10,12). Também neste caso naturalmente, Deus operou uma das suas maravilhas para fazer Jó tornar-se proprietário de todos esses bens. É verdadeira a Palavra que diz: “A bênção do Senhor é que enriquece” (Prov. 10:22), com efeito o Senhor enriquece materialmente, mas é também verdadeira a palavra que diz: “O Senhor empobrece” (1 Sam. 2:7), por isso temamos a Deus, observemos os seus mandamentos e por certo Deus não nos fará faltar nada do que necessitamos; a sua bênção repousará sobre as nossas famílias porque Ele “ama os justos” (Sal. 146:8) e abençoa a sua morada.

Vejamos agora as riquezas que possuiu Salomão porque elas lhe foram dadas por Deus sem que Salomão lhas tivesse pedido; também este é um exemplo de como por causa da bênção de Deus, um homem pode tornar-se rico de modo honesto.

A Escritura diz: “E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonho; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê… E disse Salomão: ‘…A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo? E esta palavra pareceu boa aos olhos do Senhor, de que Salomão pedisse isso. E disse-lhe Deus: Porquanto pediste isso, e não pediste para ti muitos dias, nem pediste para ti riquezas, nem pediste a vida de teus inimigos; mas pediste para ti entendimento, para discernires o que é justo; eis que faço segundo as tuas palavras; eis que te dou um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará. E também até o que não pediste te dou, assim riquezas como glória; de modo que não haverá um igual entre os reis, por todos os teus dias…” (1 Re 3:5,6,9-13). Salomão não era nem invejoso e nem cobiçoso de torpe ganância e quando Deus lhe disse para pedir o que desejava, ele pediu sabedoria, e este seu pedido agradou a Deus que lha deu; mas Deus lhe deu também o que ele não lhe tinha pedido, isto é, riquezas e glória. Ora, é verdade que Salomão foi muito rico mas vos recordo que Jesus disse: “Eis que está aqui quem é maior do que Salomão” (Mat. 12:42), para significar que ele era superior a Salomão ainda que não pudesse se gloriar na terra de tantos bens materiais quantos pôde se gloriar o rei Salomão deles. Eu considero que nós também devemos pedir a Deus sabedoria para nos conduzirmos de modo digno de Deus na terra porque este pedido é segundo a vontade de Deus, com efeito está escrito: “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (Tiago 1:5); mas nós devemos também nos guardar de pedir mal a Deus (porque movidos pela inveja amarga e pela vanglória) porque neste caso não receberíamos e se cumpriria a palavra que diz: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tiago 4:3).

Antigamente viveu um homem, que apesar de ter dito ser mais estúpido do que ninguém e não ter o entendimento do homem, fez um pedido sábio a Deus, e este seu pedido está transcrito no livro dos provérbios. O nome deste homem é Agur, filho de Jaqué, e o seu pedido é o seguinte: “Duas coisas te pedi; não mas negues, antes que morra: Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me só o pão que me é necessário; para que, porventura, estando farto não te negue, e venha a dizer: Quem é o Senhor? ou que, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus” (Prov. 30:7-9). O que acontece hoje porém é que há homens que se acham inteligentes que não só desprezam este pedido mas nem ousariam fazê-lo a Deus, porque segundo eles não convém a filhos de rei; julgai o que digo.

Resumindo: um crente pode tornar-se também rico (e portanto não o excluímos), firme permanecendo a sua integridade, quando Deus o permite e se Deus o permite. Mas isto não nos leva a dizer aos crentes: ‘Deus quer que vós enriqueçais materialmente porque esta é a sua vontade para convosco, e se vós não estais ricos não estais na vontade de Deus’, ou: ‘Se não sois ricos materialmente é porque tendes pouca fé em Deus ou porque não pedistes a Deus para sê-lo’. O facto é que estes pregadores com as suas conversas vãs tendem a fazer um crente que está contente com as coisas que tem sentir-se um miserável que não tem fé em Deus e que não faz a vontade de Deus, e o risco que corre o crente ouvindo as suas palavras é o de deixar de estar contente com as coisas que tem e de querer tornar-se rico, o que significaria sair da vontade de Deus.

Para o que serve a nossa abundância

 

Há diversas passagens da Escritura que testificam de diversas maneiras que Deus abençoa os justos também materialmente. Não podemos demonstrar o contrário antes de tudo porque isso o testifica a sagrada Escritura que não pode ser anulada, e depois também porque nós mesmos experimentámos a veracidade das palavras de Deus.

Jesus disse: “Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos deitarão no regaço; porque com a mesma medida com que medis, vos medirão a vós” (Lucas 6:38).

Ora, como podeis ver, dar é um mandamneto de Deus e nós sabemos que “o que teme o mandamento será galardoado” (Prov. 13:13), portanto também quem dá é galardoado por Deus porque obedece à ordem de Cristo Jesus.

Pelo que ensina a Escritura a nós nos será feito como fazemos aos outros, conforme está escrito: “Como tu fizeste, assim se fará contigo” (Oba. 15), e isto é verdade também no que concerne a dar, com efeito Jesus disse: “Dai, e ser-vos-á dado” (Lucas 6:38), portanto se nós provermos as necessidades dos santos, Deus proverá as nossas (“o que regar também será regado” [Prov. 11:25]); se nós dermos abundantemente, por certo nos será dado abundantemente (“aquele que semeia em abundância, em abundância também ceifará” [2 Cor. 9:6] e: “Um dá liberalmente, e se torna mais rico” [Prov. 11:24]). Para vos fazer compreender este conceito vos recordo algumas palavras que Paulo dirigiu aos Filipenses e aos Coríntios.

Paulo, depois de ter dito aos Filipenses que tinha recebido a oferta que eles lhe tinham enviado através de Epafrodito, disse-lhes: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus” (Fil. 4:19). Como podeis ver Paulo estava certo que como os Filipenses se tinham lembrado dele tendo renovado o seu cuidado para com ele, assim Deus se lembraria também deles provendo abundantemente a todas as suas necessidades. Deus é justo e nos abençoa materialmente na medida que nós abençoamos materialmente os outros.

Aos Coríntios, Paulo, depois de ter dito: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Cor. 9:7), diz: “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça… Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para comer, também dará e multiplicará a vossa sementeira…” (2 Cor. 9:8,10). Também neste caso o dar precede o receber de Deus a recompensa, com efeito, primeiro Paulo ordenou aos santos para semearem e depois disse-lhes que Deus multiplicaria a sua sementeira. É claro que a ceifa será abundante se a sementeira foi abundante, mas será pouca se a sementeira tiver sido pouca, precisamente porque nós seremos recompensados com a medida que usámos em dar.

 

Esta lei de dar com a relativa bênção material prometida por Deus aos que observam esta lei, está contida também na lei de Moisés, com efeito, a propósito de dar ao irmão necessitado está escrito: “Livremente lhe darás, e não fique pesaroso o teu coração quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o Senhor teu Deus em toda a tua obra, e em tudo no que puseres a mão” (Deut. 15:10). Como podeis ver estas palavras “por esta causa” indicam que Deus prometeu abençoar-nos materialmente, multiplicando a nossa sementeira, se nós nos guardarmos de toda a avareza e dermos aos irmãos necessitados com liberalidade e com um coração não pesaroso mas alegre.

Também no livro dos provérbios há uma promessa de bênção material dirigida àquele que obedece à ordem da repartir com os outros os seus bens, com efeito, Salomão depois de ter dito: “Honra ao Senhor com os teus bens, e com as primícias de toda a tua renda” (Prov. 3:9), diz: “Assim se encherão de fartura os teus celeiros, e trasbordarão de mosto os teus lagares” (Prov. 3:10); também estas palavras confirmam que o Senhor abençoa também materialmente aqueles que o honram com os seus bens materiais.

Quando Deus multiplica a nossa sementeira e permite assim que nós, membros da sua família, estejamos na abundância o faz por um objectivo bem preciso; vejamos qual.

Paulo, depois de ter dito: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Cor. 9:7), diz: “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra” (2 Cor. 9:8), e também: “Dará e multiplicará a vossa sementeira…. enquanto em tudo enriqueceis para toda a liberalidade..” (2 Cor. 9:10,11). Eis por que o Senhor faz abundar em nós toda a graça e multiplica a nossa sementeira, para que, tendo sempre as coisas necessárias, nós abundemos em toda a boa obra e supramos as necessidades dos necessitados dentre os santos, com feito, Paulo escreveu aos santos de Corinto: “Neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros” (2 Cor. 8:14). Ora, como é actualmente o vosso tempo presente? É um tempo favorável do ponto de vista económico? Bom, se assim é, esta vossa abundância serve a vós para as vossas necessidades mas serve também para suprir as necessidades dos pobres dentre os santos e “os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem” (Mar. 14:7), disse Jesus. Isto o se deve fazer por princípio de igualdade conforme está escrito: “Digo isto não para que haja alívio para outros e aperto para vós, mas para que haja igualdade… e assim haja igualdade; como está escrito: Ao que muito colheu, não sobrou; e ao que pouco colheu, não faltou” (2 Cor. 8:13-15). Entre o povo de Deus houve sempre quem muito colheu e quem pouco colheu e isto também hoje se pode ver no meio da irmandade espalhada pelo mundo. Se quem muito colheu se preocupar em suprir a necessidade de quem pouco colheu a este último não faltará nada, e ao que muito colheu não sobrará.

 

Irmãos, nesta nação pela graça de Deus há ainda muita abundância, nós não sabemos até quando esta durará, mas sabemos que nos devemos lembrar dos pobres repartindo com eles os nossos bens materiais porque isto é bom e aceitável perante Deus conforme está escrito: “Com tais sacrifícios Deus se agrada” (Heb. 13:16). Longe de nós o pensamento que a nossa abundância serve para suprir somente as nossas necessidades ou que Deus nos dá abundantemente todas as coisas para que delas gozemos exclusivamente nós; vigiemos e não façamos como Israel que depois de ter sido tirado a salvo da terra do Egipto com mão poderosa, e depois de ter experimentado a bondade de Deus e a sua fidelidade no deserto por quarenta anos, depois que entrou na terra prometida esqueceu Deus e se desviou da lei de Deus indo servir os ídolos das nações. O esqueceu depois que comeu com fartura, depois que construiu e habitou em belas casas, depois que viu se multiplicarem as suas manadas e os seus rebanhos, depois que viu abundarem todos os seus bens. Israel não aprendeu a servir a Deus com alegria e de bom coração no meio da abundância e por isso Deus deu o seu povo nas mãos dos seus inimigos, na mão dos espoliadores que os reduziram a grande miséria; eles atraíram a ira de Deus porque se desviaram do seu pacto no meio da abundância que Deus lhes concedeu.

Nem nos tornemos como Sodoma e as cidades circunvizinhas que “soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado” (Ez. 16:49). Vós deveis saber que toda a planície do Jordão onde precisamente Sodoma e as outras cidades estavam situadas, “antes do Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra”, “era toda bem regada e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egipto, até chegar a Zoar” (Gen. 13:10), portanto aquela planície era fértil e produzia com fartura; mas os habitantes daquelas cidades, embora dispondo de muitos bens, recusaram estender as suas mãos aos necessitados porque eram orgulhosos e soberbos, e Deus os puniu por causa da sua soberba além de por todas as outras abominações que eles cometiam na sua presença. A sabedoria diz: “Abominação é ao Senhor todo o altivo de coração; não ficará impune” (Prov. 16:5), e de facto aquelas cidades altivas não ficaram impunes.

 

Nesta nação a grande abundância que hoje existe poderá vir a faltar em pouco tempo porque Deus, no curso do tempo, muda as circunstâncias; elas não permanecem para sempre as mesmas, e isto o aprendemos por aquilo que aconteceu em Itália e na Europa nos séculos passados; anos de abundância foram interrompidos por guerras, fomes, pestilências, e a eles se seguiram anos de grande miséria. Lembrai-vos que milhares de anos atrás no Egipto, durante a vida de José filho de Jacó, pela vontade de Deus vieram primeiro sete anos de grande abundância e depois sete anos de grave fome. Deus muda os tempos e o faz segundo a sua vontade; hoje esta nação está, pela graça de Deus, entre as nações mais industrializadas e mais ricas, mas dentro de pouco tempo poderá ser contada também entre as mais pobres. Não nos iludamos; hoje são os irmãos pobres na África, na América do Sul, e na Ásia a receberem as nossas ofertas, as nossas roupas e os nossos géneros alimentares, mas dentro em pouco poderá também verificar-se o contrário a seguir a uma radical e profunda transformação das circunstâncias, e então a sua abundância servirá para suprir as nossas necessidades. Alguém dirá: ‘Não pode acontecer o que tu dizes!’ Escuta: sabe que as nuvens que vês vagar nos seus giros no céu sobre a tua cabeça e que derramam pela misericórdia de Deus e por ordem de Deus as suas águas sobre a terra, poderás deixar de vê-las por muito tempo e então as águas do rio ou do lago em cujas margens vais passear se secariam de repente e verás aquilo que nunca tinhas visto e que nem sequer tinhas imaginado pudesse acontecer nesta nação. Está escrito: “Eis que ele retém as águas, e elas secam” (Jó 12:15); isto o faz o nosso Deus que governa o universo e que muitas vezes, segundo aquilo que ensina a Escritura, puniu as nações sobre a terra ordenando às nuvens não espalhar água sobre elas.

 

Nunca reflectiste nos terramotos? Sabes por que treme a terra? A terra treme pela ira de Deus. E por que Deus a faz tremer? Porventura porque não é bom? Ou porventura porque não é justo? Assim não é, antes é justamente por Ele amar a justiça que faz tremer a terra e a faz gretar por debaixo dos pés dos mortais. Mas que pensais? Que Deus tenha os olhos fechados? Ele vê a injustiça e a maldade dos homens e ele este espectáculo de perversidades horrendas que se fazem também nesta nação não o tolera e não o aprova mas o aborrece e pune os autores dele, também fazendo tremer a terra. E quando ela treme, tremem os mais fortes, os mais hábeis perdem a sua habilidade, os mais corajosos são tomados de medo, o chifre dos orgulhosos é quebrado, os campeões da soberba são dobrados e se curvam debaixo do furor da ira de Deus, mas ao mesmo tempo Deus é exaltado e santificado pela sua justiça. Cidades inteiras no passado foram arrasadas por Deus mediante terramotos, a população dizimada, a sua força e a sua prosperidade reduzidas a nada. Logo? Logo temamos a Deus e façamos o que devemos fazer e que está em nosso poder fazer para com os pobres dentre os santos enquanto temos oportunidade. Lembrai-vos que aquele rico que tinha programado o que fazer com os seus abundantes frutos, Deus não lhe permitiu sequer derrubar os seus celeiros e edificar outros maiores porque lhe disse: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20)

Irmãos, considerai a brevidade da nossa vida (Moisés disse que “passa rapidamente, e nós voamos” [Sal. 90:10]) e considerai também que durante este breve lapso de tempo que Deus nos concede viver na terra, Deus nos manda prover as necessidades dos santos; mas não só, Ele nos fornece também os meios para fazê-lo e na sua grande misericórdia também as oportunidades.

Vejamos o que uma colecta destinada aos pobres dentre os santos faz.

Paulo escreveu: “Não só supre as necessidades dos santos, mas também transborda em muitas acções de graças a Deus; visto como, na prova desta ministração, eles glorificam a Deus pela submissão que confessais quanto ao evangelho de Cristo, e pela liberalidade da vossa contribuição para eles, e para todos; enquanto eles, pela oração por vós, demonstram o ardente afecto que vos têm, por causa da superabundante graça de Deus que há em vós” (2 Cor. 9:12-14). Irmãos, quando os pobres dentre os santos recebem as nossas ofertas se sentem aliviados porque os seus corações são recreados por meio do amor que lhes demonstramos, mas além disso eles rendem muitas acções de graças a Deus por causa da nossa obediência ao Evangelho e, movidos por ardente afecto por nós, eles oram a Deus em nosso favor. Como podeis ver são muitos os benefícios que jorram do cumprimento desta obra de caridade.

 

Deus é Aquele que dá a semente ao que semeia e pão para comer, e enquanto o pão o devemos comer a semente a devemos semear. Por isso continuemos a semear justiça; mas não observemos o vento porque está escrito que “quem observa o vento, não semeará” (Ecl. 11:4), e quando chegar o tempo da sega nos alegraremos e cantaremos de júbilo ao nosso Deus porque se cumprirá a palavra que diz: “Os que semeiam em lágrimas, com cânticos de júbilo segarão” (Sal. 126:5). Dilectos, estai prontos para fazer toda a boa obra, mas juntamente com a prontidão de ânimo conservai o contentamento com o que tendes; não vos deixeis enganar por aqueles vãos raciocínios que alguns fazem para vos fazer vir a querer enriquecer e ensoberbecer.

Para os que são ricos neste mundo

 

Para vós que fostes chamados por Deus no meio das vossas riquezas: não sejais altivos, isto é, não ambicioneis coisas altas mas acomodai-vos também vós às humildes e gloriai-vos da vossa humilhação porque também vós passareis como a flor da erva. Vós não deveis pensar serdes mais importantes do que os pobres que há no vosso meio, porque este é um pensamento vão e nocivo que é abominável para Deus. Diante de Deus, vós sois iguais aos pobres, Ele não vos considera mais do que os pobres porque também vós sois obra das suas mãos. Quem vos fez a vós, fez também os pobres: quem vos ilumina a vós, ilumina também os pobres. E depois, não vos glorieis das vossas riquezas mas gloriai-vos de conhecer o único verdadeiro Deus e o seu Filho Cristo Jesus; as riquezas não duram sempre, mas o conhecimento de Deus dura eternamente; gloriai-vos da herança incorruptível e imarcescível que está reservada também para vós nos céus e não das vossas riquezas que mais cedo ou mais tarde murcharão e desaparecerão como o fumo.

Não ponhais a vossa esperança nas riquezas para não serdes enganados por elas; as vossas riquezas hoje as tendes, amanhã podereis achar-vos sem elas por causa de um evento funesto, portanto não fixeis o vosso olhar no que pode desaparecer com tanta facilidade, mas fixai o vosso olhar nas coisas que não se vêem e ponde a vossa confiança em Deus. Ele é a Rocha dos séculos e nunca desaparecerá; nele vós podeis confiar porque Ele não engana nenhum dos que confiam nele. Lembrai-vos que as riquezas não vos podem tirar das angústias enquanto Deus sim; por isso não deveis pôr a vossa confiança nelas conforme está escrito: “Se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” (Sal. 62:10); “aquele que confia nas suas riquezas cairá” (Prov. 11:28), mas quem confia em Deus permanece de pé no meio da tentação; também isto deve vos fazer reflectir sobre a inutilidade de confiar nas riquezas.

Fazei o bem, enriquecei em boas obras, reparti de boa mente os vossos bens com aqueles que estão em necessidade, de maneira a ajuntardes para vós um tesouro sólido lá em cima no céu onde os ladrões não minam e não roubam e onde a traça e a ferrugem não consomem. Não sejais como Nabal, que era um homem muito rico mas ao mesmo tempo louco. Ele é o exemplo do rico que não está pronto para dar a quem está em necessidade, com efeito, a Escritura diz que quando Davi lhe enviou mensageiros para que ele lhes desse alguma coisa ele lhes respondeu com dureza e não lhes quis dar nada. Mas Deus não deixou de recompensá-lo por esta sua conduta ímpia, com efeito, está escrito que “passados quase dez dias, feriu o Senhor a Nabal, e este morreu” (1 Sam. 25:38).

Sede como Barzilai, o gileadita, que era homem muito rico e que apesar de ser muito velho, quando Davi fugiu juntamente com os seus homens por medo de Absalão, proveu o rei e o povo que com ele estava de víveres enquanto este se demorara em Maanaim.

Imitai Jó que era um homem muito rico que rapartia os seus bens com os necessitados tanto que podia dizer estas palavras no meio da prova para sustento da sua integridade: “Vestia-me da justiça, e ela me servia de vestimenta” (Jó 29:14).

 

Muitos são ricos, mas não para com Deus

Vejamos agora quem é aquele que embora sendo rico neste mundo não é rico para com Deus.

Jesus disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. E propôs-lhes uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; e arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” (Lucas 12:15-21).

Como podeis ver, este homem rico quando viu que a sua herdade tinha produzido abundantemente pensou logo em recolher os seus frutos e os seus bens, para os poder gozar no decorrer dos anos vindouros (ele pensava viver ainda muitos anos sobre a terra); ele não se preocupou com os pobres, nem se lembrou de forma alguma deles porque queria manter tudo para si.

Era rico mas privado de sabedoria e de temor de Deus, com efeito, Deus o chamou ‘louco’ porque pensava em entesourar para si mesmo. Ora, Jesus disse que quem para si ajunta tesouros não é rico para com Deus; certo é rico para com o mundo, mas não para com Deus. Portanto, quem é rico neste mundo porque foi chamado por Deus no meio das suas riquezas, e pensa em entesourar para si, aos olhos de Deus é um louco porque rejeita a sabedoria que diz: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra” (Ecl. 11:1,2), e a palavra que diz: “Não ajunteis para vós tesouros na terra… mas ajuntai para vós tesouros no céu” (Mat. 6:19,20), e por conseguinte, é também pobre porque não possui tesouros no céu.

 

Eis o testemunho que Jesus deu do anjo da igreja de Laodicéia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; oxalá foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca. Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Ap. 3:15-17); ora, nós não sabemos qual era o testemunho que as pessoas do mundo davam deste, mas certamente não era igual ao que deu Jesus dele, porque as pessoas julgam pela aparência porque olham para a aparência enquanto a fiel Testemunha que está no céu não julga segundo a aparência porque ele conhece os segredos do coração e as obras de todos os mortais. Jesus conhecia as obras do anjo da igreja de Laodicéia, e disse-lhe que, embora ele dissesse ser rico e de nada ter falta, era infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Certamente que o Senhor não lisonjeou de modo nenhum este mas o repreendeu severamente; este depois de ter crido havia-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados; tinha querido enriquecer materialmente e tinha conseguido mas desprezando a grande salvação que havia recebido, com efeito, ele não se tinha preocupado com acrescentar à sua fé nem a virtude nem a ciência nem a temperança nem a paciência nem a piedade nem o amor fraterno e nem a caridade. O Senhor viu isto e lhe fez chegar uma carta de repreensão, na qual o admoestou e o exortou a arrepender-se. Que dizer? Não vivemos porventura num tempo em que nós somos testemunhas daquilo de que foi testemunha o Senhor em Laodicéia? Hoje, sob o impulso destes pregadores da prosperidade muitos no seio da irmandade, entre os quais muitos pastores e não só muitas ovelhas, tornaram-se como o anjo da igreja de Laodicéia. Estão satisfeitos consigo mesmos, se gloriam das suas riquezas materiais acumuladas com a fraude e as desejam cada vez mais; abandonaram a fonte da sua graça e se puseram a honrar as vaidades mentirosas; têm aparência de piedade mas negaram-lhe o poder; aos olhos dos demais são respeitados pela sua grande quantidade de bens, mas são pobres porque vivem no ócio e não querem fortalecer a mão do pobre e do necessitado. Eles desejam acumular tesouros na terra e não no céu, demonstrando assim não terem nenhum desejo de partir e ir habitar com o Senhor, e além disso se angustiam só de pensar que terão que deixar tudo quando morrerem. Aqueles que ajuntam tesouros no céu, pelo contrário, demonstram crer que há um céu onde, depois de morto, se vai habitar com o Senhor e onde se vai colher o que se semeou na terra.

 

Expliquemos algumas passagens da Escritura tomadas para sustentar a mensagem da prosperidade económica

Era inevitável que os que começaram a pregar este tipo de mensagem tomassem passagens da Escritura para sustentar a sua doutrina. Vamos agora explicar algumas destas passagens.

Ÿ Jesus disse: “Todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna” (Mat. 19:29); “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por amor do reino de Deus, que não haja de receber no presente muito mais, e no mundo vindouro a vida eterna” (Lucas 18:29,30).

 

Como nestas palavras há a promessa de receber na terra casas e terras em grande número aqueles que pregam o Evangelho da prosperidade afirmam que isto demonstra que quem deixa a casa e as terras por amor do Reino de Deus deve forçosamente tornar-se um homem rico com muitas casas e muitas terras. Certo, à primeira vista pareceria que o Senhor prometeu aos que deixam casas e terras por amor do seu nome fazê-los tornarem-se grandes proprietários com muitas casas e muitas terras, mas examinando cuidadosamente esta promessa nos damos conta que não é este o seu verdadeiro significado. Porquê? Porque estes esquecem voluntariamente que nestas palavras do Senhor são prometidas também muitas mulheres a quem deixa a sua mulher, muitos filhos a quem deixa os seus filhos, muitos pais a quem deixa seu pai, muitas mães a quem deixa sua mãe, muitos irmãos a quem deixa os seus irmãos, e muitas irmãs a quem deixa as suas irmãs por amor do seu nome; portanto, como não se pode entender que quem deixa a sua mulher para ir para um país longínquo pregar o Evangelho tornar-se-á marido de cem mulheres com outros tantos cem filhos nascidos do seu matrimónio com elas, porque isto equivaleria a dizer que o Senhor é a favor do adultério, assim não se pode dizer que quem deixa sua casa por amor de Cristo se tornará na terra proprietário de cem casas.

 

As palavras de Jesus significam que a quem deixa a sua casa ou a sua terra por amor do Senhor acontecerá isto, a saber, que encontrará muitos crentes que porão à sua disposição as suas casas e as suas terras. Se estas palavras de Jesus quisessem dizer o que dizem estes estas palavras encorajariam a se ajuntar tesouros na terra e não no céu, enquanto o Senhor ordenou para não se ajuntar tesouros na terra.

 

E como se poderia dizer que esse é o sentido dessas palavras do Senhor quando Jesus pouco antes tinha dito ao jovem rico: “Vai vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Mar. 10:21)? O Senhor não lhe disse: ‘Vai, vende as tuas casas e as tuas terras e dá esmolas e depois sobre esta terra receberás cem vezes tanto’, porque se aquele jovem tivesse ouvido semelhantes palavras não se teria retirado dali pesaroso e triste porque ele teria tido a certeza de recuperá-las sobre a terra e de tornar-se ainda mais rico. Mas o facto é que Jesus lhe disse para vender os seus bens para fazer para si um tesouro no céu, e estas palavras não agradaram ao jovem rico porque ele sabia que se tornaria pobre e que aqueles bens não os recuperaria mais sobre a terra.

A tal propósito devo dizer que nós não devemos dar esmolas pensando que assim fazendo nos tornaremos mais ricos sobre a terra ou porque queremos que o Senhor sobre a terra nos dê a mesma quantidade de dinheiro que demos aos pobres juntamente com mais dinheiro. Este não é um justo sentimento, porque nós devemos dar por amor ao nosso próximo e porque movidos de piedade para com ele. E depois quem disse que a recompensa a se deve forçosamente obter sobre a terra, quando há irmãos que deram e pouco depois morreram sem poderem obter a retribuição sobre a terra? Jesus explicou que vendendo os nossos bens e fazendo com eles esmolas ajuntamos para nós tesouros no céu e não que ajuntamos para nós novos tesouros na terra.

 

Jesus, numa ocasião disse estas palavras: “Quando deres um jantar, ou uma ceia, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem os vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso retribuído. Mas quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos; e serás bem-aventurado; porque eles não têm com que te retribuir; mas retribuído te será na ressurreição dos justos” (Lucas 14:12-14). Como podeis ver Jesus disse para não convidar para o banquete os nossos amigos, nem os vizinhos ricos e nem os nossos irmãos e os nossos parentes; porquê? Para evitar que também eles nos convidem e nos seja dada a retribuição sobre a terra. Quem importa convidar então para o banquete? Os cegos, os aleijados, os mancos, os pobres, isto é, todas aquelas pessoas que não têm a possibilidade de nos retribuir sobre a terra, tendo a confiança que a retribuição nos será dada na ressurreição dos justos.

 

A sabedoria de Deus diz: “O que se compadece do pobre empresta ao Senhor, que lhe retribuirá o seu benefício” (Prov. 19:17), mas segundo o ensinamento de Jesus no caso do banquete feito para os pobres (uma obra piedosa em prol dos pobres) a retribuição não nos será dada durante a nossa vida terrena mas nos será dada na ressurreição dos justos.

E depois irmãos não vos esqueçais que o Senhor prometeu sobre a terra também perseguições para aqueles que deixam casas, terras, irmãos e irmãs, mulheres, pais e filhos por amor do seu nome, com efeito, em Marcos está escrito: “Com perseguições” (Mar. 10:30). Naturalmente é supérfluo dizer que estes faladores vãos se guardam bem de pronunciar por inteiro as palavras do Senhor mencionando também as perseguições porque as perseguições vão contra os seus gostos (Paulo tinha prazer nelas mas estes não) dado que eles querem viver e fazer viver as pessoas ‘com sucesso’.

Ÿ Paulo disse aos santos de Filipos: “Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fil. 4:12,13).

 

Naturalmente, como os que pregam esta particular mensagem tinham de invocar alguma palavra do apóstolo Paulo para fazer parecer a sua doutrina verdadeira, eles tomaram estas afirmações de Paulo, para dizerem que também Paulo viveu na abundância como um filho de rei. Será bom que estejais atentos às peculiares interpretações que estas raposas dão às palavras do apóstolo Paulo para não cairdes na rede. Certo, Paulo teve também abundância em algumas circunstâncias, isto o disse ele mesmo; mas isto não significa nem que fazia o tipo de vida escandaloso destes pregadores, e nem que pregava as suas mesmas conversas vãs. Sabei que Paulo quando disse que teve abundância, não entendia dizer que ele ambicionava coisas altas e nem que era rico. E depois estes esquecem que Paulo tinha aprendido a contentar-se com o que tinha, tivesse ele abundância ou padecesse necessidade; isto significa que ele quando padecia necessidade estava contente da mesma maneira em que o estava quando tinha abundância. E isto é aquilo que estes parece não terem aprendido ou queiram aprender porque falam de uma maneira que fazem perceber que eles nunca estão contentes com o que têm, que ser pobre é uma desonra para os cristãos, e que a sua felicidade depende da abundância dos bens terrenos.

 

Irmãos, o repito: Estas palavras de Paulo aos Filipenses não significam que ele vivia como um príncipe porque ele mesmo disse aos Coríntios de si e dos seus cooperadores: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo” (2 Cor. 6:10). Quero que reflictais sobre este particular para entenderdes em quais circunstâncias adversas Paulo teve abundância quando escreveu estas palavras. Paulo na mesma epístola aos santos de Filipos quando fez saber ter recebido a oferta deles escreveu: “Mas bastante tenho recebido, e tenho abundância” (Fil. 4:18), mas tende presente que ele esta abundância, neste caso, a experimentou na prisão onde estava preso por causa do Evangelho e de onde lhes escreveu. Sim, teve abundância mas certamente não viveu como um príncipe da terra naquela prisão!

 

Ÿ “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra” (2 Cor. 9:8,9). Também aqui como aparece o verbo abundar, estes pregadores julgaram por bem invocá-lo. Julgo supérfluo dizer que estas palavras não significam que Deus prometeu nos fazer tornar ricos e nos fazer viver como reis sobre a terra. Estas palavras são dirigidas aos que semeiam com um coração alegre; porque a eles Deus prometeu dar e multiplicar a sua sementeira para poderem exercer toda a liberalidade.

 

Ÿ “Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 Tim. 6:17).

 

Deus nos provê abundantemente todas as coisas para delas nós gozarmos significa que Deus nos faz o bem e nos dá chuva e estações frutíferas e alimento em abundância, mas não significa que Deus quer que nós nos tornemos ricos ou que temos o direito de comprar coisas luxuosas para nós com o dinheiro que Deus nos provê ou que temos o direito de nos darmos aos prazeres da vida.

 

Ÿ “Amado, faço votos que tu prosperes em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como prospera a tua alma” (3 João 2).

Estes pregadores se apoiam nesta passagem desta epístola; é a passagem que mais lhes agrada dentre todas e de que mais falam de toda a terceira epístola de João. Nunca falam de Diótrefes e da sua ímpia conduta, ou do amor que o amado Gaio mostrava pelos irmãos forasteiros, mas estas palavras as citam frequentemente e de boa vontade. Ora, segundo a interpretação destes isto significa que Deus quer que nós nos tornemos ricos e vivamos como ricos em qualquer parte do mundo que nos encontremos e em qualquer tempo que vivamos; mas as palavras “faço votos que tu prosperes em todas as coisas”, significam que o ancião desejava que nada faltasse a Gaio e que Deus lhe desse abundantemente todas as coisas de que ele necessitava segundo as suas riquezas e com glória, para que pudesse abundar cada vez mais em toda a boa obra.

 

Quero que noteis que nesta mesma epístola o ancião disse a Gaio também estas palavras: “Amado, não imites o mal, mas o bem” (3 João 11); digo-vos isto para que entendais como o ancião queria sim que Gaio prosperasse em todas as coisas (portanto também economicamente) mas também que ele não imitasse o mal mas o bem. Isto significa que Gaio, enquanto prosperava em todas as coisas devia continuar a ater-se ao bem (a fazer boas obras) e a aborrecer o mal, isto é, a soberba da vida, a concupiscência da carne e a dos olhos. O que eu tenho visto porém é que estes querem que Deus os faça prosperar economicamente mas não querem imitar de maneira nenhuma o bem mas o mal, com efeito, a eles agrada vestir muito elegantemente, viver em delícias e ir se divertir, sendo incontinentes e dissolutos.

Ÿ Deus na lei disse: “E será que, se ouvires a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra. E todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, quando ouvires a voz do Senhor teu Deus; bendito serás na cidade, e bendito serás no campo. Bendito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais; e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas. Bendito o teu cesto e a tua amassadeira…. O Senhor mandará que a bênção esteja contigo nos teus celeiros, e em tudo o que puseres a tua mão… O Senhor te dará abundância de bens no fruto do teu ventre, e no fruto dos teus animais, e no fruto do teu solo, sobre a terra que o Senhor jurou a teus pais te dar… e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado” (Deut. 28:1-5,8,11,12).

 

Ora, Deus tinha prometido abençoar materialmente o seu povo na condição dele obedecer aos seus mandamentos, portanto os Israelitas receberiam bênção de Deus se temessem a Deus e guardassem todos os seus mandamentos. Queria que notásseis bem que nas palavras de Deus está esta expressão: “Se ouvires a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno” (Deut. 28:1); digo isto porque este “todos” significa que os Israelitas para serem abençoados por Deus não deviam só não fazer ídolos para se prostrarem diante deles, não deviam só seguir a justiça e a misericórdia e a fé em Deus mas deviam também guardar os sábados, as luas novas, as festas no tempo estabelecido por Deus, as leis sobre os animais impuros, a lei sobre a circuncisão, a lei sobre o dízimo, a lei que proibia eles se casarem com pessoas de outras nações, as leis sobre os holocaustos, sobre os sacrifícios de acções de graças, sobre os sacrifícios do pecado. Como podeis ver na condição posta por Deus ao seu povo estava a de observarem todos os preceitos da lei.

 

Estes pregadores tomam estas palavras do antigo pacto para sustentarem que Deus prometeu a nós crentes fazer-nos prosperar economicamente. Nós, porque nada podemos contra a verdade não nos permitimos anular de alguma maneira estas palavras da lei, porém queremos lembrar-vos as seguintes coisas:

Ø Estas promessas fazem parte do antigo pacto e não do novo. O novo pacto é melhor e “está firmado sobre melhores promessas” (Heb. 8:6), portanto comecemos por dizer que as bênçãos prometidas aos crentes debaixo do novo pacto são mais excelentes do que as do antigo pacto. Basta considerar esta promessa do Senhor Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte [a segunda morte]” (João 8:51); e estas palavras de Deus: “De seus pecados não me lembrarei mais” (Heb. 8:12; Jer. 31:34), para compreender a superioridade do segundo pacto sobre o primeiro pacto.

 

Ø Deus “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef. 1:3), tendo-nos adoptado como seus filhos para comparecer diante dele santos e irrepreensíveis. Nós filhos de Deus temos paz e alegria em abundância porque em Cristo temos a remissão dos pecados e porque possuímos a vida eterna.

 

Ø Nós crentes cremos que se guardarmos os mandamentos de Deus, Deus nos abençoará também materialmente neste mundo dando-nos abundantemente tudo o que necessitamos, mas nós não damos nos nossos discursos a prioridade às bênçãos materiais (dinheiro, comida, casas, terras) que Deus nos dá, porque sabemos que elas permanecem sempre bênçãos temporárias e não eternas. “Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará tanto um como os outros” (1 Cor. 6:13), e: “As [coisas] que se vêem são temporais” (2 Cor. 4:18), diz Paulo, por isso que razão há para exaltar a abundância de bens que o Senhor nos dá na sua fidelidade neste mundo, quando sabemos que ela se pode gozar só neste mundo e que ela um dia dissipar-se-á porque será aniquilada por Deus?

 

Cuidai que quando nós dizemos que Deus nos dá abundância de bens materiais não queremos dizer que somos pessoas que se podem definir ricas, mas apenas que não nos falta nada do que necessitamos e que temos também de que prover as necessidades dos santos.

Ø Como nós estamos debaixo da graça e não debaixo da lei devemos estar atentos ao citar estas palavras da lei porque entre os mandamentos que os Israelitas deviam guardar para serem abençoados materialmente por Deus estavam também os que agora nós não devemos guardar para não cair de novo debaixo da escravidão da lei (o sábado, as luas novas, as festas, o dízimo, a circuncisão, e outros).

Ø Entre as bênçãos está também esta: “Emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado” (Deut. 28:12); como é que então estes pregadores da prosperidade vivem em dívidas porque tomam emprestado dos bancos enormes somas de dinheiro? Dizem frequentemente ter tomado emprestado grandes somas de dinheiro para a obra de Deus, e depois têm o descaramento de dizer que foi Deus a dizer-lhes para tomarem emprestado o dinheiro! Se contradizem com as suas próprias palavras, porque quem Deus abençoa, segundo as palavras da lei, não deveria ter necessidade de tomar emprestado dinheiro de quem quer que seja!

 

Ø Deus prometeu também amaldiçoar o seu povo se estes o abandonassem não guardando os seus mandamentos. Destas maldições estes faladores vãos nunca falam como se o Senhor tivesse prometido só abençoar o seu povo.

 

Eis o que disse Deus: “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão: Maldito serás tu na cidade, e maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira. Maldito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e as crias das tuas vacas, e das tuas ovelhas. Maldito serás ao entrares, e maldito serás ao saíres. O Senhor mandará sobre ti a maldição; a confusão e a derrota em tudo em que puseres a mão para fazer; até que sejas destruído, e até que repentinamente pereças, por causa da maldade das tuas obras, pelas quais me deixaste. O Senhor fará pegar em ti a pestilência, até que te consuma da terra a que passas a possuir. O Senhor te ferirá com a tísica e com a febre, e com a inflamação, e com o calor ardente, e com a secura, e com crestamento e com ferrugem; e te perseguirão até que pereças. E os teus céus, que estão sobre a cabeça, serão de bronze; e a terra que está debaixo de ti, será de ferro. O Senhor dará por chuva sobre a tua terra, pó e poeira; dos céus descerá sobre ti, até que pereças. …. O Senhor te ferirá com as úlceras do Egipto, com tumores, e com sarna, e com coceira, de que não possas curar-te.. Desposar-te-ás com uma mulher, porém outro homem dormirá com ela; edificarás uma casa, porém não morarás nela; plantarás uma vinha, porém não aproveitarás o seu fruto. O teu boi será morto aos teus olhos, porém dele não comerás; o teu jumento será roubado diante de ti, e não voltará a ti; as tuas ovelhas serão dadas aos teus inimigos, e não haverá quem te salve… O estrangeiro, que está no meio de ti, se elevará muito sobre ti, e tu mais baixo descerás; Ele te emprestará a ti, porém tu não emprestarás a ele..” (Deut. 28:15-24,27,30,31,43,44).

 

Como podeis ver são muitas e variadas as maldições que Deus prometeu enviar sobre os Israelitas se estes se desviassem dos seus mandamentos, mas vos recordo que também neste caso entre os mandamentos, cuja transgressão significaria atrair a maldição de Deus, estavam também aqueles do sábado, das luas novas, das festas, da circuncisão, do dízimo, dos sacrifícios, dos holocaustos, das comidas, que são todas leis que nós crentes agora não devemos guardar para não voltar a cair debaixo do jugo da lei.

 

Vos lembro além disso que nós todos estávamos debaixo da maldição da lei antes de nos convertermos ao Senhor precisamente porque não guardávamos todos os mandamentos da lei conforme está escrito: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gal. 3:10; Deut. 27:26), mas “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” (Gal. 3:13) e por meio dele a bênção de Abrão veio sobre nós Gentios.

Nós cremos que é necessário falar também debaixo da graça das referidas maldições, a fim de fazer compreender aos crentes, que Deus além de prometer abençoar os que o temem e guardam os seus mandamentos, também prometeu castigar severamente aqueles que depois de tê-lo conhecido deixaram de temê-lo e de guardar os seus mandamentos. Sei que ouvir falar das bênçãos divinas é mais agradável do que ouvir falar das maldições divinas e sei também que alguns querem apenas ouvir falar de coisas agradáveis, mas eu não vos lisonjearei, mas vos direi como são na realidade as coisas. Antes de tudo comecemos por dizer que quando os Israelitas abandonaram Deus, Deus os feriu como lhes tinha dito, com efeito, enviou contra eles a fome, a peste, e a espada, para destruí-los e para desarraigá-los da boa terra que lhes tinha dado. Os reduziu à miséria mais profunda; os obrigou a comer até mesmo os seus filhos pela fome: lhes fez secar a garganta, a pele e a carne pela sede. Enviou contra eles exércitos estrangeiros impiedosos que destruíram as suas cidades, os seus campos, as suas casas, e os levaram para longe do seu país. Sim irmãos, isto é o que a Escritura diz que aconteceu aos Judeus que se rebelaram a Deus. E hoje, pelo que nos respeita, o que nos acontecerá se nós como os Israelitas de então deixarmos de guardar os mandamentos de Deus? Por certo, Deus não continuará a abençoar-nos porque Jesus disse: “Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas” (João 15:6). Vos lembro a tal propósito a Escritura que diz: “A terra que embebe a chuva, que cai muitas vezes sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção da parte de Deus; mas se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Heb. 6:7,8); isto confirma que se um crente abandona o Senhor deixando de guardar os seus mandamentos não poderá dar mais bons frutos mas apenas espinhos e abrolhos e será maldito, e no fim lançado no fogo eterno para ser queimado! Sim é verdade que agora somos filhos da bênção, mas é também verdade que se negarmos o Senhor que nos resgatou nos tornaremos filhos da maldição. Na segunda epístola de Pedro a propósito dos falsos doutores que estão no meio do povo de Deus primeiro está dito: “negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2 Ped. 2:1) (portanto estes tinham conhecido o Senhor mas depois o abandonaram), e depois que são “filhos de maldição” (2 Ped. 2:14), e isto para confirmação de como, debaixo da graça, se nós negarmos e abandonarmos Deus as maldições divinas se abaterão uma após outra sobre nós. Se os Israelitas não ficaram impunes quando abandonaram o primeiro pacto, muito menos escaparemos nós da punição divina se abandonarmos o segundo pacto.

Ø Também pelo que respeita à saúde Deus tinha prometido abençoar Israel, com efeito, lhe tinha dito: “Se ouvires atento a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é recto diante de seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egipto; porque eu sou o Senhor que te sara” (Ex. 15:26); mas como podeis ver Deus tinha prometido não pôr sobre ele nenhuma enfermidade na condição de Israel guardar os seus mandamentos. Que aconteceu quando Israel abandonou Deus? Aconteceu que Deus pôs sobre ele toda a espécie de doenças, porque Deus lhe tinha também dito: “Se não tiveres cuidado de guardar todas as palavras desta lei, que estão escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e temível, do Senhor teu deus, então o Senhor fará espantosas as tuas pragas, e as pragas de tua descendência, grandes e permanentes pragas, e enfermidades malignas e duradouras; e fará tornar sobre ti todos os males do Egipto, de que tu tiveste temor, e se apegarão a ti. Também o Senhor fará vir sobre ti toda a enfermidade e toda a praga, que não está escrita no livro desta lei, até que sejas destruído” (Deut. 28:58-61). Também debaixo da graça Deus fere com enfermidades aqueles que lhe desobedecem e em alguns casos os faz também morrer, portanto será bom cuidar de toda a nossa conduta para não sermos feridos por Deus com a enfermidade ou com a morte. Temos claros exemplos de como Deus exercita os seus juízos infligindo a crentes rebeldes enfermidades e morte, nos casos de Ananias e Safira que Deus matou porque se coligaram para tentar o Espírito do Senhor, e naqueles crentes da igreja de Corinto que foram feridos com enfermidades e alguns com a morte por se terem aproximado da ceia do Senhor indignamente. Irmãos, nós queremos anunciar-vos todo o conselho de Deus sem vos ocultar nada das coisas que deveis saber! Nós não lisonjeamos os rebeldes prometendo-lhes prosperidade, bênção, e cura. Nós anunciamos também os tremendos castigos divinos que descem sobre nós se começarmos a andar segundo a carne.

 

Ø Estes faladores vãos naturalmente se guardam bem de anunciar também os juízos de Deus sobre aqueles que se rebelam a Deus; citam apenas as promessas de bênção para lisonjear e devemos dizer que com o seu suave e lisonjeiro falar conseguem sugestionar muitos crentes simples que vão ouvi-los.

 

Estes últimos não tendo discernimento e conhecimento das Escrituras se voltaram para eles e bebem abundantemente do seu manancial, mas sem matar a sede, porque a deles é água salgada; o seu não é um falar condimentado com sal que confere graça a quem os ouve mas um falar inquinado por enganos camuflados com palavras suaves. Estai atentos!

 

Por que estes ensinam esta doutrina

 

Mas vamos ao ponto crítico da questão: Por que estes ensinam esta doutrina? Que proveito tiram dela?

Paulo disse a Tito: “Porque há muitos rebeldes, faladores vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tito 1:10,11): eis o que leva estes pregadores a ensinar esta doutrina que é agradável de ouvir, e atrai quem nesta terra quer enriquecer e viver uma vida no luxo; a torpe ganância. O que é necessário dizer destes é que estes falam muito de fé e de prosperidade e depois se vem a saber que quando são convidados para pregar em alguma comunidade não vão se quem os convida não lhes dá a soma de dinheiro por eles desejada ou não lhes dá todas as ofertas que se recolherão em cada reunião. Mas estas coisas não espereis lhas ouvir dizer quando pregam porque nunca vo-las dirão; mas o vireis a saber depois. A questão é esta: como nas reuniões onde estes pregam a oferta é obrigatória (quero dizer que o cestinho das ofertas é feito passar pelo menos uma vez) e como ‘o contrato’ prevê que ou todas as ofertas recolhidas durante a reunião serão entregues a eles ou a metade delas lhes serão dadas, estes têm todo o interesse de falar desta doutrina porque sabem que mais ‘pesadas’ serão as moedas que se recolherão e mais ‘pesados’ voltarão para as suas casas. Dizem com insistência aos crentes para darem abundantemente para a obra do Senhor porque sabem que boa parte daquele dinheiro irá para os seus bolsos; prometem grandes bênçãos sobre a cabeça daqueles que dão abundantemente, até dizendo-lhes que soma de dinheiro devem dar para recebê-las! Estes são roubadores, abutres que estão pousados e prontos a levantar vôo mal vêem alguma presa fraca ou em fim de vida andar em volta das suas paragens. Se há alguma coisa que segundo estes faladores vãos não escandaliza é a passagem do cestinho das ofertas nas suas reuniões; têm o descaramento de dizer que se as irmãs põem o véu nas suas reuniões arriscam escandalizar as pessoas incrédulas, mas não se envergonham de fazer passar a sua longa mão devoradora entre as filas de pessoas sentadas nas suas reuniões; mas a eles não lhes importa nada se fazendo assim escandalizam as almas porque o seu objectivo é o de enriquecerem. Estes seguem o caminho de Balaão, que por amor do lucro se atirou ao erro; mas conseguem fazer parecer aos olhos de muitos que são servos do Senhor porque conseguem juntar versículos da Escritura e falar com discursos persuasivos de sabedoria humana acerca do Evangelho; não te edificam espiritualmente porque misturam o sagrado com o profano, a verdade com o erro, mas materialmente te devoram se cais nas suas mãos. Dilectos, enquanto tiver fôlego na garganta vos conjurarei a vos guardardes destes rebeldes e a vos desviardes deles por amor da justiça e da verdade; gritarei aos vossos ouvidos: ‘Estai atentos ao sonido da trombeta porque o inimigo conseguiu introduzir os inimigos da cruz no vosso meio para vos fazer desviar da simplicidade e da pureza que há em Cristo’.

 

O amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males e a soberba da vida não é do Pai mas do maligno

Paulo disse: “Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Tim. 6:6-10).

Irmãos, nós nada trouxemos para este mundo; considero que esta é uma daquelas coisas em que se deva pensar muito mais frequentemente. Jó disse um dia: “Nu saí do ventre de minha mãe..” (Jó 1:21), e isso é o que cada um de nós deve recordar e dizer. Nenhum de nós pode dizer ter trazido alguma coisa para este mundo pelo que, quando morrer, a deverá tornar a levar consigo. Nenhum de nós poderá levar nada do que possui, quando morrer, mas terá que deixar tudo, e digo tudo, nesta terra; não importa se pouco ou muito, cada um de nós terá que deixar tudo neste mundo.

Ora, enquanto nós vivemos nesta terra somos postos à prova por Deus a cada momento; sabemos que devemos contentar-nos com o que temos porque está escrito: “Contentando-vos com o que tendes” (Heb. 13:5), mas somos tentados a não contentarmo-nos com o que temos, porque vemos à nossa volta uma multidão de pessoas que nunca está contente com o que possui. Os homens querem apropriar-se, não importa a que custo, da maior quantidade de dinheiro possível e da maior quantidade de bens materiais possível. Ao ver assim tantas pessoas insatisfeitas com o que possuem, somos tentados também nós a não contentarmo-nos com o estado em que nos encontramos. Que devemos fazer então? Devemos sujeitar-nos a Deus e resistir ao diabo para não cair em tentação.

Paulo disse que a piedade com contentamento é um grande ganho; isto significa que quem exercita a piedade com o coração contente com o que tem, ganha muito. Queria fazer-vos notar que o apóstolo Paulo definiu ganho também o morrer de um crente, com efeito, disse aos Filipenses: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fil. 1:21). Ora, nós sabemos que o crente que persevera até ao fim na fé e morre no Senhor não perde absolutamente nada, mas ganha a sua alma porque Jesus disse: “Com a vossa perseverança ganhareis as vossas almas” (Lucas 21:19); portanto não há ninguém que tenha morrido no Senhor e tenha perdido a sua alma ou que se tenha arrependido de ter perseverado até ao fim; mas podemos também dizer que não há ninguém que exercite a piedade com contentamento que possa dizer perder alguma coisa ou que um dia se arrependerá de ter ficado contente com o que tinha e de não ter querido enriquecer, precisamente porque também a piedade com contentamento proporciona um grande ganho a quem a exercita.

Mas nós sabemos também que a par do caminho mestre no qual estamos há uma estrada torta onde andam aqueles que deixaram de estar contentes com o que tinham. Ela está acessível a todos; não é preciso muito para se entrar por ela porque está verdadeiramente à mão de todos. Andando nesta estrada se fica rico materialmente. Vale a pena andar por ela? De modo nenhum, porque ela leva à perdição e ruína aqueles que a tomam, em outras palavras quem a toma perde a sua alma. Considerai onde estão aqueles que morreram depois de terem entrado por esta estrada (eles estão no Hades, atormentados nas chamas, juntamente com aquele rico que Jesus disse “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente” (Lucas 16:19); rangem continuamente os seus dentes e choram continuamente), e percebereis como não vale absolutamente a pena querer enriquecer neste mundo.

Jesus disse um dia aos ricos: “Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lucas 6:24), e aos seus discípulos: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mar. 10:24,25); ora, nós sabemos que estas palavras não são dirigidas só àqueles homens ricos que não querem arrepender-se e não querem crer em Cristo, mas também aos que depois de terem crido quiseram enriquecer e se desviaram da fé. Com base em que coisa dizemos isto? Com base nestas palavras de Paulo a Timóteo: “Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Tim. 6:9); mas que pensais? Que um crente que quer enriquecer materialmente possa ficar de pé? Que um crente que quer enriquecer possa permanecer na fé? Dilectos, não vos iludais, e não vos deixeis enganar por aqueles que vos querem persuadir a crer que se pode querer ser rico e ao mesmo tempo ficar firme na fé. Hoje, alguns homens corruptos te dizem como podes ser cristão e fazer muito dinheiro; eu antes te digo como podes ir para a perdição se decides querer fazer dinheiro sobre a terra. Se Paulo disse que o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males e que alguns nessa cobiça se desviaram da fé vós deveis crer nisso; não penseis que o amor pelo dinheiro seja salutar e profícuo, porque esta é uma mentira gerada pelo diabo. A Escritura diz: “Não sejais amantes do dinheiro” (Heb. 13:5); portanto quem começa a amá-lo se faz culpado e é recompensado pelo seu vão modo de viver com a morte, mas também com a ilusão porque se achará no fogo eterno juntamente com aqueles que o iludiram.

Vamos o dinheiro. Mas por que é o dinheiro amado por muitos? Por que ele consegue fazer-se amar pelos mortais? Respondamos a estas perguntas com a sagrada Escritura. Ora, nós vivemos sobre esta terra onde é necessário possuir dinheiro para comprar as coisas de que necessitamos para viver. Não podemos não usar o dinheiro ou dizer não necessitar dele; mas ao mesmo tempo não o devemos amar para o bem da nossa alma. É claro que quanto mais dinheiro alguém possui mais bens materiais pode comprar porque “por tudo o dinheiro responde” (Ecl. 10:19). Mas o facto é que o dinheiro além de dar a possibilidade de comprar muitas coisas, faz sentir mais seguro quem dele tem muito; quero dizer com isto que o diabo consegue enganar as pessoas fazendo-lhes crer que a sua segurança na vida depende do dinheiro, o que nós sabemos que não é verdade, porque não se está seguro nas mãos do dinheiro mas nas mãos de Deus. Fora das mãos de Deus não há segurança alguma, mas só angústia, medo, aflições, e desespero. “A fartura do rico não o deixa dormir” (Ecl. 5:12), diz Salomão; portanto não penseis que vos tornando ricos vos poreis em segurança e começareis a ter uma vida tranquila, porque isso não é verdade. Vós perdereis também o sono e não só a vossa alma, se vos pondes a servir o dinheiro. Pensais escapar querendo também enriquecer? Vos iludis, porque está escrito: “O que se apressa a enriquecer não ficará impune” (Prov. 28:20).

Paulo definiu o amor ao dinheiro ‘raiz de toda a espécie de males’; considerai esta definição de Paulo e atendei a isto, a fim de perceberdes o que está na raiz de todos os males que acontecem na terra. Examinando muitas más acções e muitas injustiças que são perpetradas na terra não se pode não reconhecer que a sua origem está precisamente no amor ao dinheiro. Considerai pois quanto maléfico é o amor ao dinheiro! Mas por que é que o amor ao dinheiro leva a agir mal? Porque quem começa a amar o dinheiro cessa de querer repartir com os outros os seus bens, porque não pensa em mais nada senão em acumular o mais dinheiro possível e não pensa de modo nenhum em dar do seu dinheiro aos pobres ou aos que estão em necessidade. Para ele torna-se contraproducente dar o seu dinheiro aos pobres porque considera o fazer esmolas uma perda de dinheiro: para ele torna-se contraproducente também emprestar dinheiro sem interesse porque isso vai contra os seus interesses pessoais. Mas além disso começa a estudar maneiras de fazer o mais dinheiro possível e vós deveis saber que todos os caminhos que um avarento segue para ganhar dinheiro lhe impedem de cumprir a vontade de Deus na terra. E de facto, quando achará tempo para orar, para ler a Palavra de Deus, para reunir-se com os irmãos, para fazer boas obras, para visitar os orfãos e as viúvas nas suas aflições, quem ama o dinheiro? Ele não pode dedicar o tempo a fazer a vontade de Deus porque o deve gastar ou a trabalhar além de todos os limites ou a encontrar uma maneira de extorquir dinheiro ao seu próximo. Em outras palavras a Palavra de Deus não pode dar mais fruto na vida de um crente que começa a amar o dinheiro porque está escrito: “Os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e ela fica infrutífera” (Mat. 13:22). João diz que “este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 João 5:3), mas diz também que “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2:15); estas suas palavras confirmam plenamente as palavras de Cristo porque mostram que se um crente se põe a amar o dinheiro deixa de guardar os mandamentos de Deus. E se deixa de guardar os mandamentos de Deus como pode continuar a estar o amor de Deus no seu coração? Como pode continuar ele mesmo a estar em Deus?

 

Esta é a razão pela qual nos é mandado de não amar o dinheiro; não de não usá-lo, mas de não amá-lo, o que é diferente. Nós crentes em Cristo que fomos ressuscitados com Cristo e feitos sentar com Cristo nos lugares celestiais não devemos ambicionar as coisas da terra mas as de cima onde Cristo está sentado à direita de Deus, e portanto não devemos querer enriquecer materialmente, porque isso significaria querer ajuntar tesouros na terra. Considerando que na terra a traça e a ferrugem consomem e os ladrões minam e roubam, e também que a terra e as obras que nela há um dia serão queimadas, não vale a pena querer enriquecer neste mundo.

A sabedoria diz: “Não te fatigues para enriqueceres; e não apliques nisso a tua sabedoria.. Porventura fixarás os teus olhos naquilo que não é nada? porque certamente criará asas e voará ao céu como a águia” (Prov. 23:4,5); como podeis ver, a Escritura nos exorta de várias maneiras a guardarmo-nos de querer enriquecer, portanto faremos bem em ouvir o conselho de Deus e não o de alguns pregadores que com o seu modo de falar não fazem mais do que fazer nascer no coração de muitos o desejo de querer enriquecer.

Pelo que concerne ao tipo de casas que nós devemos querer habitar, o tipo de roupas a querer vestir, o tipo de carros a querer guiar, estes pregadores dizem que como filhos de rei devemos ter as melhores coisas (que são as mais caras) que há sobre a terra. Isto equivale a dizer que nós devemos ambicionar as coisas altas, e não as humildes, e isto em nítido contraste com a Palavra de Deus que diz claramente: “Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes” (Rom. 12:16), portanto estes pregadores não se atêm à sã doutrina mas só a conversas vãs e profanas. Se nós tivéssemos que viver como dizem eles cessaríamos de mostrar a nossa mansidão aos homens e cessaríamos também de buscar a humildade, e começaríamos antes a mostrar a nossa soberba e a nossa altivez como fazem já eles com a sua conduta e com o seu modo de falar. Que faremos pois? Nos poremos a viver e a falar como fazem estes homens corruptos de entendimento que se desviaram da simplicidade e da pureza que há em Cristo para andarem segundo a teimosia do seu coração? Assim não seja. Nós temos em Jesus o perfeito exemplo de fé, nas suas palavras e nas dos apóstolos uma guia infalível, e não sentimos e nem vemos necessidade de seguir as palavras suaves e enganadoras destes e o seu mau exemplo. Aquilo que vemos antes é o dano que estão produzindo estes saqueadores na vinha de Deus; muitas comunidades estão tomadas por um desejo de querer ficar muito ricas; mas não ricas espiritualmente mas materialmente. Estão à procura de prestígio na sociedade moderna; como se os crentes nesta geração tivessem que se pôr a procurar o favor deste mundo mau e não mais o de Deus. Os crentes que têm dado ouvidos a estes faladores vãos se corromperam, alguns tornaram-se mornos, outros frios, nenhum deles se quer humilhar porque todos querem de um modo ou de outro fazer-se ver. Querem atrair a atenção do mundo sobre eles e o conseguem porque são excêntricos e arrogantes mas não podem mais atrair a atenção das trevas para a luz, porque a luz que estava neles se apagou; estes não podem resplandecer como luminares neste mundo de trevas porque recusam humilhar-se diante de Deus.

Certo, a atenção do mundo aqueles que pregam esta mensagem conseguiram tê-la porque começaram a operar escândalos um após o outro e o mundo se começou a interessar pelos seus casos e a pô-los nos jornais sensacionalistas. A vida destes que pregam ‘o Evangelho da prosperidade’ é uma vida cheia de más acções que não fazem mais do que fazer blasfemar a doutrina de Deus. E depois dizem querer viver como filhos de rei! Mas se eles quisessem verdadeiramente viver como filhos do Rei dos reis, procurariam viver como viveu O Filho do Rei dos reis nos dias da sua carne. Jesus é o primogénito entre muitos irmãos, e nós filhos de Deus devemos procurar imitar Jesus. Portanto, se Aquele que estava junto de seu Pai, na glória, antes da fundação do mundo, decidiu humilhar-se e levar um tipo de vida humilde durante os dias da sua carne, quem são estes que vêm da terra como nós, para começarem a sugerir aos outros que vivam como soberbos? Certamente presunçosos.

Muitos tornaram-se ricos de modo desonesto e não porque Deus abençoou a obra das suas mãos

 

A sagrada Escritura nos ensina que há pessoas que tornaram-se ricas de modo fraudulento, isto é, roubando e enganando o próximo.

Deus disse através do profeta Jeremias: “Ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim as suas casas estão cheias de engano; por isso se engrandeceram, e enriqueceram; engordam-se, estão nédios, e ultrapassam todos os limites do mal” (Jer. 5:26-28); dilectos, estas palavras são actuais e falam da existência no meio do povo de Deus de gente sem escrúpulos e sem temor de Deus que tornou-se rica e poderosa roubando o seu próximo e enganando-o; certo, vestem-se elegantemente, estão nédios, têm belas casas, mas tudo aquilo que têm o acumularam com o engano, e querem fazer passar a sua abundância de bens como uma particular bênção de Deus sobre eles dizendo: ‘É verdade nós nos temos enriquecido, temos adquirido para nós grandes bens; porém em todo o nosso trabalho não acharão em nós iniquidade alguma que seja pecado’. Mas Deus conhece as suas obras e dá deles este testemunho: ‘Rodeiam-me de mentiras e de falsidades, são mercadores que têm nas mãos balanças enganosas; eles amam a opressão’.

Tiago, o irmão do Senhor, escreveu estas palavras aos ricos desonestos que haviam no seio da irmandade: “E agora, vós ricos, chorai e pranteai, por causa das desgraças que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão roídas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e devorará as vossas carnes como fogo. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente vivestes sobre a terra, e vos deleitastes; cevastes os vossos corações no dia da matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resiste” (Tiago 5:1-6). Por estas palavras de Tiago se percebe claramente que a face do Senhor está contra aqueles que acumulam bens e se enriquecem fazendo trabalhar em vão os seus operários; isto é confirmado também por Paulo, o qual depois de ter dito que Deus quer que nós nos santifiquemos, que fujamos da fornicação, que possuamos o nosso corpo em santidade e honra e que ninguém engane o seu irmão em negócio algum, diz: “Porque o Senhor é vingador de todas estas coisas” (1 Tess. 4:6) (por isso o Senhor se vinga dos que fazem trabalhar em vão os seus operários ou que não lhes dão o que é justo e merecido).

Mas os desonestos não se enriquecem só roubando os seus operários do seu salário (violando o mandamento que diz: “Não oprimirás o trabalhador pobre e necessitado, seja ele de teus irmãos, ou seja dos estrangeiros que estão na tua terra e dentro das tuas portas..” [Deut. 24:14]), mas também não pagando os impostos ao Estado em outras palavras, fugindo ao fisco para não pagarem tudo o que se deve dar a César (violando o mandamento que diz: “Dai, pois, a César o que é de César” [Mar. 12:17]).

 

Por que prospera o caminho dos ímpios?

 

Também os ímpios que há no meio do povo de Deus gozam boa saúde e prosperam do ponto de vista material, e para confirmar isto citamos as seguintes escrituras:

Ÿ Asafe disse nos salmos: “Quanto a mim, os meus pés quase resvalaram; pouco faltou para que os meus passos escorregassem. Pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios. Não há apertos na sua morte; o seu corpo é forte e sadio. Não se acham em tribulações como outra gente, nem são afligidos como os demais homens. Pelo que a soberba lhes cinge o pescoço como um colar; a violência os cobre como um vestido. Os olhos deles estão inchados de gordura; trasbordam as fantasias do seu coração. Motejam e falam maliciosamente; falam arrogantemente da opressão. Põem a sua boca no céu, e a sua língua percorre a terra. Pelo que o povo se volta para eles e bebem abundantemente do seu manancial … Eis que estes são ímpios e sempre em segurança aumentam as suas riquezas” (Sal. 73:2-10,12)”

 

Ÿ Jó disse: “Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder? Os seus filhos se estabelecem à vista deles, e os seus descendentes perante os seus olhos. As suas casas estão em paz, sem temor, e a vara de Deus não está sobre eles. O seu touro gera, e não falha; pare a sua vaca, e não aborta. Eles fazem sair os seus pequeninos, como a um rebanho, e suas crianças andam saltando” (Jó 21:7-11).

 

Ÿ Jeremias disse a Deus: “Justo és, ó Senhor, ainda quando eu pleiteio contigo; contudo pleitearei a minha causa diante de ti. Por que prospera o caminho dos ímpios? Por que vivem em paz todos os que procedem aleivosamente? Plantaste-os, e eles se arraigaram; medram, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe do seu coração” (Jer. 12:1,2).

 

Ÿ Davi disse nos salmos: “Descansa no Senhor, e espera nele; não te enfades por causa daquele que prospera em seu caminho, por causa do homem que executa maus desígnios” (Sal. 37:7).

 

Como podeis ver, nestas Escrituras, em referência aos malvados é mencionado tanto o vocábulo ‘prosperidade’ como o verbo ‘prosperar’. Irmãos, ponde muita atenção nestes particulares porque eles estão ainda uma vez a demonstrar que o facto de alguém prosperar do ponto de vista material não significa de modo nenhum que ele seja forçosamente uma pessoa que aumenta as suas riquezas porque Deus abençoa a obra das suas mãos por causa da sua recta conduta! Eis como respondemos àqueles pregadores que falam tanto de prosperidade económica!

Dilectos, também nós somos testemunhas nesta geração das coisas de que foram testemunhas, Asafe, Jó, Jeremias, e Davi nos seus tempos, com efeito, também nós vemos no meio do povo de Deus gente ímpia prosperar. Quando digo gente ímpia, refiro-me a pessoas que dizem ter crido que honram Deus com a sua boca mas têm o seu coração longe de Deus e exercitam a cobiça. São conhecidos, falam do Evangelho, são respeitados e aplaudidos por muitos, prosperam porque sempre aumentam as suas riquezas, têm boa saúde, mas o seu carácter é este:

Ø São orgulhosos e soberbos; da forma como falam, eles sabem tudo, podem tudo. Pensam ser deuses e não homens; a sua boca diz coisas muito arrogantes com as quais conseguem encantar muitos crentes simples. Querem ser tratados como reis, porque em vez de se terem revestido de humildade se cobriram de soberba; em vez de se revestirem de mansidão se revestem de arrogância.

 

Ø São violentos, com efeito, usam violência física para com aqueles que os contrariam; são homens que oprimem o povo de Deus de todas as maneiras para alcançarem os seus propósitos desonestos.

 

Ø São cobiçosos de torpe ganância, porque são negociantes que se dedicam ao comércio das coisas de Deus que para ganhar fazem recurso à mentira, à astúcia, e ao engano.

 

Ø Vivem todos em paz com os ladrões, são sócios dos adúlteros, têm um falar vulgar e indecente, caluniam com a sua língua os que os repreendem. Quando ouvem a correcção a lançam para trás das costas.

 

Sim, irmãos, eis qual é a conduta desta gente ímpia que vemos prosperar com os nossos olhos também nesta geração. E depois são precisamente eles que falam tanto de prosperidade! Nunca falam de justiça, de temperança, de humildade, de santidade; mas de prosperidade sim!

Que diremos pois? Porventura que estes têm o favor de Deus e que a bênção de Deus repousa sobre eles? De modo nenhum; nós consideramos que estes embora executem os seus maus desígnios e consigam assim prosperar são inimigos de Deus porque está escrito: “A inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rom. 8:7,8). Tinha razão Jeremias ao dizer que Deus chegado está à sua boca, porém longe do seu coração (cfr. Jer. 12:2)!

Dilectos, que Deus nos dê a graça de perseverar no seu temor até ao fim sem ter a mínima inveja destes ímpios que prosperam e pregam a prosperidade em muitas igrejas de Deus também aqui nesta nação; o sei, não é fácil permanecer calmo e confiante no Senhor, ao ver os ímpios prosperar, mas vale a pena esforçarmo-nos para permanecer. Deus permite que eles prosperem e nos faz ver a sua prosperidade para nos pôr à prova, a nós que queremos viver uma vida pia, temperada e justa na terra, para ver se nós o amamos com todo o nosso coração e com toda a nossa alma. Eis por que eles vivem e prosperam!

 

Para vós que vos tornastes amigos do mundo

 

Escutai vós, que vos tornastes amigos do mundo e inimigos de Deus, porque destes ouvidos a esta mensagem sedutora.

Vós vos tornastes altivos, com efeito, agora não vos acomodais mais às coisas humildes, mas ambicionais coisas altas; tendes prazer precisamente nas coisas que não deveríeis desejar; tendes roupas esplêndidas, roupas de marca, compradas a caríssimo preço; com todo o vosso vestuário espraiais uma tal soberba que nem certa gente do mundo manifesta. De serdes humildes e de vos vestirdes modestamente não quereis sequer ouvir falar, porque esta mensagem perversa já fez brecha em vós. Começastes também a detestar os que ensinam a ser humilde; agora, também vós falais de riquezas, de prosperidade económica como fazem estes faladores vãos sem escrúpulos; os vossos discursos não edificam, são áridos, porque são privados de sal e da graça de Deus; mas apesar disso persistis em afirmar que Deus vos abençoou. Mas como podeis afirmar tais mentiras, quando sois tão mornos, tão indiferentes para as coisas espirituais, tão vazios da Palavra de Cristo, tão miseráveis que até fazeis pena! Fostes enganados por meio de palavras suaves e lisonjas, com efeito, agora estais atarefados a trabalhar além de todos os limites para vos enriquecerdes e poderdes dizer também vós: ‘Deus quer que nós sejamos ricos e não pobres’. Mas dizei-me: ‘Mas o que entendeis por pobres?’ Porventura pessoas que estão contentes com as coisas que têm e que não querem enriquecer mas a quem não falta nada do que é necessário? Se assim é, vos digo que perdestes o discernimento; que não conseguis mais distinguir entre o bem e o mal. Paulo disse: “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1 Tim. 6:8), enquanto da forma como falais vós parece que para estarmos contentes é necessário sermos ricos e altivos. Tornastes-vos miseráveis; isto o vemos, porque falando convosco não há comunhão de espírito. Não conheceis as Escrituras; conheceis os livros destes abutres mas não conheceis o livro do Senhor. Também vós começastes a julgar-vos sábios e fazeis raciocínios que não convêm a santos. Assimilastes tão bem esta nova doutrina que agora quem prega a simplicidade, a pureza, a humildade quereis fazê-lo passar por um apóstata, por alguém que abandonou a fé, e que procura manter longe do povo de Deus a bênção do Senhor! Despertai do vosso sono mortal em que caístes e Cristo vos inundará de luz e reconhecereis ter dado ouvidos à mentira e não à verdade do Evangelho.

Vos adornais também agora com ouro porque dizeis: ‘Mas que mal há em usar uma corrente de ouro, um relógio de ouro, um anel de ouro com diamantes, uma pulseira?’ O mal há, só que cegados como estais pelas trevas não o vedes. Ide lançar fora o vosso ouro e voltai para o Senhor do qual vos afastastes, e o Omnipotente será o vosso ouro.

A vossa soberba não a manifestais só no vestuário mas também em outras coisas. Comprastes para vós bens luxuosos que nem certa gente do mundo se pode permitir, entrando nos vossos palácios de prazer parece entrar na casa real de algum príncipe, ao ver os vossos carros luxuosos estacionados fora do local de culto parece termos chegado a um clube frequentado por milionários e por multimilionários; é um espectáculo horrendo aquele que vemos com os nossos olhos. E quem são os que moram nestes palácios? E quem são os que guiam estes carros? Sois vós, que depois de um dia ter crido, destes lugar no vosso coração às cobiças, ao engano das riquezas e aos prazeres da vida, e a Palavra de Cristo não pôde mais dar fruto em vós. Não, não pode dar fruto, porque deixastes de guardar os mandamentos de Deus. Vós não prosperareis porque vos desviastes dos mandamentos de Deus. É hora de vos humilhardes diante do Senhor lançando para longe de vós a soberba de que estais cheios; chorai, lamentai como pela perda de um filho, curvai o vosso pescoço como junco na presença de Deus, confessai-lhe vos terdes ensoberbecido, abandonai a soberba do vosso coração e obtereis misericórdia do Senhor; então sim Ele vos exaltará, então sim vos tornareis ricos.

 

Não quereis dar ouvidos ao Senhor? Pior para vós; “se fores escarnecedor, só tu o suportarás” (Prov. 9:12), diz a Sabedoria, portanto não vos iludais, porque o vosso perverso modo de viver vos retribuirá; já estais obtendo parte da devida recompensa do vosso erro, porque estais cheios de ais e de dores (deixastes de ter confiança no Senhor, e pusestes a vossa confiança nas riquezas e vos desviastes, vos traspassastes a vós mesmos de dores); sim daquelas dores que esperam o ímpio que não quer dar ouvidos à voz do Senhor. Examinai-vos a vós mesmos; mas não vedes que perdestes a vossa confiança no Senhor? Mas não vedes que para vós o vosso socorro não vem mais do Senhor, mas sim do vosso abundante dinheiro que ganhastes porque desprezastes a salvação obtida do Senhor?

Mas não vos apercebeis de ter perdido a paz, a tranquilidade, a verdadeira alegria que há no Senhor?

Mas não vedes a vossa ignorância das sagradas Escrituras? Mas não vedes que nem orar conseguis? Mas não vedes como para vós as boas obras feitas em prol dos necessitados já estão relegadas para o último lugar na vossa vida, antes é melhor dizer que para vós elas deixaram de existir?

Tudo isto não vos sucede porque abandonastes o Senhor, o vosso Deus, enquanto Ele vos levava pelo bom caminho? A vossa maldade é aquela que vos castiga, e as vossas infidelidades são a vossa punição!

Não endureçais os vossos corações, vós que amais o mundo e a suas concupiscências; Deus vos exorta a voltar para ele com todo o vosso coração e a vos pordes a andar humildemente com Ele.

 

Muitos há que são inimigos da cruz de Cristo

 

O apóstolo Paulo escreveu aos Filipenses: “Irmãos, sede meus imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós; porque muitos há, dos quais repetidas vezes vos disse, e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória assenta no que é vergonhoso; os quais só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao corpo da sua glória, segundo o seu eficaz poder de até sujeitar a si todas as coisas” (Fil. 3:17-21).

Paulo sabia que no seio do povo de Deus haviam muitos que andavam como inimigos da cruz de Cristo os quais naturalmente não se conduziam de modo digno do Evangelho, e por isso ele exortou os santos a imitá-lo e a olhar para aqueles que andavam conforme o exemplo de vida que tinham nele e nos seus cooperadores pelo reino de Deus e não conforme o mau exemplo dos inimigos da cruz de Cristo. Ele não procurou calar a propósito destes, porque descreveu claramente o seu carácter e disse qual era o fim que os esperava; mas o que quero que noteis é que Paulo tinha falado repetidas vezes a respeito da presença destes inimigos da cruz de Cristo e que quando escreveu aos Filipenses a propósito destes o fez chorando. Que acontece hoje porém em muitas igrejas? Acontece que alguns ignoram a existência destes que andam como inimigos da cruz de Cristo no meio da irmandade; outros os reconhecem porque vêem que são árvores más que produzem frutos maus mas calam, porque pensam que falar deles não contribui para a edificação da igreja. Irmãos, eu não me calarei mas “darei gritos como a que está de parto” (Is. 42:14), porque vós deveis guardar-vos destes homens e não deveis imitá-los porque são operadores de escândalos que se escondem habilmente por detrás da bandeira do Evangelho do qual eles dizem ser ministros mas isso não é verdade, porque eles servem o seu ventre e não o Evangelho.

Nós como discípulos de Cristo devemos imitar Cristo e aqueles que renunciaram a si mesmos, que tomaram a sua cruz e seguiram as pisadas de Cristo; e entre aqueles que renunciaram a si mesmos e levaram a sua cruz após o Senhor, estão os apóstolos Paulo, Pedro, Silvano, Timóteo, João e Tiago. Certo, eles não estão mais neste mundo, mas de qualquer modo temos os seus escritos que nos fazem perceber de que maneira eles se conduziram.

Vejamos agora as palavras de Paulo aos santos de Filipos.

Ÿ “Muitos há que são inimigos da cruz de Cristo” (Fil. 3:18).

Para perceber o que significa ser inimigo da cruz de Cristo, é necessário antes de tudo falar da cruz de Cristo. Ora, nós crentes nos gloriamos da cruz de Jesus Cristo porque por meio dela o mundo, para nós, foi crucificado, e nós fomos crucificados para o mundo, conforme disse Paulo aos Gálatas: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gal. 6:14). Quando nós dizemos que para nós o mundo foi crucificado, entendemos dizer que nós que somos de Cristo “crucificámos a carne com as suas paixões e concupiscências” (cfr. Gal. 5:24). Ora, se o mundo e as coisas que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida foram cravadas na cruz de Cristo, como podemos nós nos pôr a amar o que Cristo cravou na sua cruz? Não pensais vós que nos pormos a amar o mundo e as suas concupiscências significa conduzirmo-nos como inimigos da cruz de Cristo? Certamente que assim é. Por isso todos aqueles que com o seu mau exemplo e com as suas conversas vãs querem fazer nascer em nós o amor pelo mundo e as suas concupiscências, são inimigos da cruz de Cristo. Quando um pregador procura fazer nascer no seu auditório o amor pelas riquezas, pelo dinheiro, pelos prazeres da vida, e procura suscitar nos crentes o desejo de acumular tesouros na terra em vez de no céu, sabei que ele fala como inimigo da cruz de Cristo. Se vós lerdes atentamente as palavras de Cristo e as dos apóstolos, notareis que Cristo primeiro e depois os apóstolos exortaram os crentes de várias maneiras a se conduzirem de modo santo e justo, e a cuidar das coisas de cima e não das que estão na terra, por isso quem vem a vós e não vos exorta a renunciardes às mundanas concupiscências mas a pôr nelas a vossa afeição é um inimigo da cruz de Cristo. Quando se fala da cruz de Cristo se fala de renúncia, de sofrimento, de perseguições; por isso não é concebível que alguém pregue a palavra da cruz e ao mesmo tempo esteja à procura de fama, de poder temporal, do favor do mundo, de riquezas terrenas, e ame o mundo com as suas concupiscências; se vos apercebeis que quem prega não quer renunciar a si mesmo e não quer tomar a cruz de Cristo mas procura o favor do mundo, e demonstra com a sua conduta amar o mundo que Cristo cravou na cruz, guardai-vos dele porque não é um amigo da cruz de Cristo mas um seu acérrimo inimigo.

Ÿ “Cujo fim é a perdição” (Fil. 3:19).

Aqueles que são inimigos da cruz de Cristo, caminham por uma estrada que leva à perdição. Porquê? Porque os que amam o mundo, amam a sua vida, e nós sabemos que “quem ama a sua vida perdê-la-á” (João 12:25). Sim, todos aqueles que não querem renunciar a si mesmos e não querem tomar a sua cruz, não herdarão o reino de Deus.

Ÿ “Cujo deus é o ventre” (Fil. 3:19).

Ora, os inimigos da cruz de Cristo não servem o nosso Senhor Jesus Cristo, mas o seu ventre, e para servir o seu ventre operam escândalos e contrastam os ensinamentos da Palavra de Deus. Mas por que contrastam a palavra da verdade? Porque ela se opõe aos desejos da carne e às mundanas concupiscências, isto é, às coisas que eles amam. Paulo exortou os santos de Roma a guardarem-se destes nestes termos: “Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rom. 16:17,18). Aquilo que ainda alguns não perceberam é que não se pode procurar o próprio interesse (dinheiro, fama, glória dos homens) na obra do Senhor e ao mesmo tempo servir o Senhor com fidelidade e com integridade de coração; com efeito eles pensam que os que pregam e procuram o seu interesse servem a Cristo, mas se assim é, Jesus não disse a verdade porque ele disse: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lucas 16:13). Vos faço exemplos para vos fazer perceber como quem serve ao seu ventre não pode servir a justiça; alguém que tem prazer na glutonaria e nas bebedeiras não pode amar a palavra que diz: “Portanto sede sóbrios” (1 Ped. 4:7), porque ela se opõe aos seus carnais desejos. Também quem ama o dinheiro não pode amar a palavra que diz: “De graça recebestes, de graça dai” (Mat. 10:8), ou aquela que diz: “Contentando-vos com o que tendes” (Heb. 13:5), porque a Palavra se opõe nitidamente aos seus interesses pessoais. Esta é a razão pela qual aqueles que servem ao seu ventre não podem ao mesmo tempo servir a justiça e se opõem com contendas à sã doutrina de Deus.

Ÿ “Cuja glória assenta no que é vergonhoso” (Fil. 3:19).

Os que servem o seu ventre se distinguem dos que servem o nosso Senhor porque eles se gloriam de coisas que são a sua vergonha. Eles em vez de se envergonharem das suas más acções gloriam-se de tê-las feito. Ouvindo-os nos damos conta que é mesmo assim.

Ÿ “Os quais só pensam nas coisas terrenas” (Fil. 3:19).

A Palavra diz claramente: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Col. 3:2), mas estes dissentem de palavra e por obras, com efeito, procuram de todas as maneiras tornarem-se ricos e famosos aos olhos do mundo.

Estes pensam nas coisas que são da terra e este seu sentimento se opõe nitidamente ao do crente que deseja partir do corpo e ir habitar com o Senhor nos lugares celestiais. Da forma como falam e vivem estes, se percebe claramente que eles não desejam partir do corpo para ir habitar com o Senhor porque estão bem na terra no meio das suas riquezas.

 

Mas quanto a nós, como a nossa pátria está nos céus, queremos ir para lá onde Cristo está sentado à direita de Deus, para lá onde Deus faz reinar a paz e onde se descansa dos trabalhos terrenos. Enquanto os inimigos da cruz atentam nas coisas que se vêem nós atentamos nas que se não vêem que são eternas e guardadas para nós nos céus. Nós agora nos sentimos atraídos para o céu e não mais para a terra; para as coisas celestiais e não mais para as terrenas que são um sopro que passa, por isso as coisas do mundo não nos atraem mais como outrora, por isso não sentimos a necessidade de nos tornarmos ricos e famosos, ou de vestir de maneira excêntrica e luxuosa, ou de morar em palácios de prazer. Mas eu vos pergunto: ‘Mas se nós tivéssemos os mesmos desejos da gente do mundo que diferença haveria entre nós e eles?’ Irmãos, nós devemos demonstrar ao mundo por obras e em verdade que nos sentimos peregrinos e forasteiros nesta terra. Se dizemos com a boca estar sobre o caminho que leva ao céu devemos também com os factos demonstrar que queremos ir para o céu e a maneira de fazê-lo é não nos conformarmos ao presente século mau.

 

Ma se também nós nos conformarmos ao curso deste mundo cessaremos de iluminar as trevas e elas não poderão ver em nós um povo que caminha à luz do Cristo de Deus.

Tomámos a cruz sobre nós e com ela queremos continuar a caminhar unidos ao nosso Senhor; certamente para nós que queremos andar como amigos da cruz de Cristo as renúncias e as tribulações são muitas, mas na espera da aparição do nosso Senhor Cristo Jesus vale a pena suportá-las porque no fim da carreira nos será atribuída a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam. A Deus seja a glória eternamente. Amen.

 

Fonte

 

Baixe o pdf